quinta-feira, 19 de março de 2015

Os ex-votos setecentistas


Na sacristia da Igreja da Senhora da Lapa guardam-se três tábuas votivas, milagres ou, simplesmente, ex-votos; uma de 1759, outra de 1761, outra de 1804. Mas houve outras.
Agostinho Araújo estudou-as no seu sábio trabalho “Em redor dos ‘milagres’ da Lapa”[1]. Fotografias das três subsistentes saíram no livro Vila do Conde, de Joaquim Pacheco Neves.
Estes testemunhos de gratidão dependeram ainda do grande sobressalto provocado pela pregação do Pe. Ângelo Sequeira; os dois ex-votos mais antigos são contemporâneos da edificação da nova igreja.
É sintomático que o beneficiado duma das graças fosse de São Simão da Junqueira. Uma obra como a que se projectou precisava de grande adesão popular. Aliás, só se pôde projectar por contar com tal adesão.

Ex-voto de João da Costa, de São Simão (da Junqueira)

Diz assim a sua cartela:

Milagre que fez Nossa Senhora da Lapa de Vila de Conde a João da Costa, de São Simão, que estando em perigo de vida, desenganado de médicos, e se apegou com a Senhora: Ela lhe deu saúde. Já que fez tão grande milagre, por isso se mandou pintar. Ano de 1759.

Os três quadros têm em comum a imagem de Nossa Senhora, a cama em que jaz o doente e um pequeno conjunto de pessoas, familiares ou porventura cirurgiões, os curandeiros encartados do tempo.
Neste caso, Nossa Senhora encontra-se à direita da pintura, não está envolta em auréola de nuvens e olha de frente para quem aprecia o quadro. O seu manto, muito azul, cobre o que parecer ser uma segunda capa de cor vermelha viva. Sob ela, é que está o vestido branco.
Utem-se a impressão de que um véu lhe encobre parcialmente o cabelo. Sobre a cabeça pousa uma coroa.
Ao nível do peito, o manto alarga-se destacando um busto muito volumoso.
Os seus pés pousam talvez sobre nuvem.
É neste retrato que a imagem da Senhora da Lapa se parece mais com a da Botica Preciosa.
Pela cama, pelo seu dossel de cor branca, pela coberta, o doente aparenta ser pessoa de posses.
Os dois homens, o negro (escravo?) e o branco (cirurgião?), chamam a atenção para o doente, mas não parecem em atitude de oração: também eles fixam quem olha para o ex-voto.
Não há janelas e o chão da divisão da casa distingue-se mal do que deviam ser as paredes.

Ex-voto de Joaquim, filho de André Pereira da Costa, de Vila do Conde

Informa a cartela:

Milagre que fez Nossa Senhora da Lapa a Joaquim, filho de André Pereira da Costa, desta Vila, da Rua de Sobmosteiro, estando gravemente enfermo de bexigas, com uma convulsão, já desenganado dos médicos, sem esperança de vida. E logo, recorrendo à dita Senhora, lhe deu saúde no ano de 1761 anos.

Nossa Senhora foi pintada em posição frontal, mas a sua cabeça e olhar dirigem-se para a cama. O seu manto é de um azul claro, com forro vermelho, sobre uma veste branca com ramagens e de forro azul. Por baixo, distingue-se um vestido de azul mais claro.
Envolta em halo de nuvens, apoia-se sobre uma base sustentada por três querubins. Não possui coroa, mas parece que um véu lhe cobre os cabelos.
A silhueta é globalmente volumosa
Semelhanças bastante evidentes com a imagem da Botica Preciosa.
Das outras três pessoas do quadro, uma senhora (mãe? Esposa?) reza com o olhar dirigido para a Senhora e um homem, o “médico”,  atende o doente, que está naturalmente de cama.
Coberta da cama é azul e o dossel vermelho.
As paredes da divisão não têm nitidez e por isso não mostram janelas.
A data de 1761 é seguida de um arroba, que abrevia a palavra anos.

Ex-voto de José Gomes Visa e Manuel da Costa Craveiro

Presumimos que este ex-voto se encontre num museu de Lisboa e por isso recorremos à reprodução do trabalho de Agostinho Araújo. Face aos precedentes, tem a originalidade de respeitar a pescadores e aos perigos do mar.
Consta da cartela:

Milagre que fez Nossa Senhora da Lapa a José Gomes Visa e a Manuel da Costa Craveiro, os quais saindo nos seus batéis com a sua gente, estando o mar e tempo bom, se levantou de tal sorte o mar e temporal que, obrigados a dar-lhes a popa, como fizeram, entrando no porto da Guarda milagrosamente por mercê da Senhora no ano de 1760.

Nossa Senhora olha do canto superior direito os dois barquinhos que então navegam em mar sossegado. De notar a gritante falta de perspectiva que permite que o tamanho da imagem da Senhora da Lapa tenha quase a dimensão dos dois barcos; nestes distinguem-se minúsculos pescadores.
Mas uma vez a imagem da Senhora lembra a da Botica Preciosa.

Agostinho Araújo dá notícia de mais dois ex-votos de data próxima dos anteriores, “o quadrinho que celebrava a graça concedida pela Virgem, em 1759, a Manuel, filho de Manuel Gomes, da freguesia barcelense de Chorente, oferecido por pessoa de Chorente”, desaparecido, e “o ex-voto de Maria Baptista, mulher de Agostinho Lopes, de Vila do Conde, a qual, dando-lhe um acidente na rua, logo melhorou ao invocar a divina Senhora da Lapa”, que será também do mesmo ano marcante de 1759. O autor não indica o paradeiro dele.

O ex-voto de Alves Gomes

Sendo embora já do começo do séc. XIX, incluímos aqui o ex-voto de Alves Gomes por nos parecer bem enquadrado na devoção originada da pregação do Pe. Ângelo Sequeira.
Leitura da cartela:
Milagre que fez Nossa Senhora da Lapa (a) Alves Gomes, soldado, e a sua mulher, desta Vila, que, achando-se doente com uma grande dor e em perigo de vida, recorreu à mesma Senhora e em breve tempo melhorou, em Janeiro deste ano de 1804.
Na pintura, vêem-se o doente na cama e a esposa em oração, além de Nossa Senhora da Lapa. A representação da Mãe de Deus ainda lembra as imagens nascidas da divulgação do Pe. Ângelo Sequeira, mas a uma distância já grande em termos de colorido e de coroa.
Nossa Senhora foi pintada entre a suplicante e o doente. O manto é branco, mas não liso, sobre um vestido de vermelho retinto.
Envolta em halo nebuloso, apoia-se sobre três querubins. Dos lados, a meia altura, mais dois anjos à esquerda e à direita.
Com coroa, mas sem véu.
A silhueta é muito menos volumosa que a dos ex-votos anteriores denotando progressivo afastamento da imagem da Botica Preciosa.
A suplicante reza sem fixar a Senhora, frente à cama onde está o marido.
Coberta da cama do soldado Alves Gomes é castanha, com lençóis muito rendados. Dossel vermelho de menos aparato que o dos ex-votos precedentes.
O interior da casa é muito vagamente definido.

Todos estas tábuas votivas apontam para a lembrança da divulgação que o Pe. Ângelo Sequeira fez da devoção à Senhora da Lapa, mas os quatro que datam de entre 1759 e 1761 lembram muito particularmente a sua acção em Vila do Conde, bem como a do Prior Falcão que promoveu a construção da nova e sumptuosa igreja.

Pequena imagem de Nossa Senhora da Lapa, certamente para dar a beijar. Embora se pareça com as imagens comuns da Senhora, o seu escultor deu-lhe uma forma particularmente elegante.


[1] Este estudo pode-se ler aqui: http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/2829.pdf. Mas há também edição impressa.

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