quinta-feira, 19 de março de 2015

A Igreja de Nossa Senhora da Lapa

A escritura de arrematação da Igreja da Lapa
A Escritura de arrematação da Igreja da Lapa é um longo documento notarial onde se encontram informações valiosas.
Em 2 de Março de 1758, o tabelião dirigiu-se a casa do Prior Francisco de Lima e Azevedo Camelo Falcão, Juiz da Confraria de Nossa Senhora da Lapa, e aí se lavrou a escritura[1]. Esta data é assim anterior de alguns meses em relação à da memória paroquial, redigida em 14 de Maio do mesmo ano.
Deve-se estranhar que o Prior fosse juiz da Confraria, o que pode significar que ele se deixara galvanizar pelas pregações do Pe. Ângelo Sequeira e queria em pessoa conduzir as obras no novo e grandioso templo.
A Confraria de Nossa Senhora da Lapa já existiria de há muito? Não sabemos dizer.
Escritura de arrematação e contrato que fazem os Juízes e mais Oficiais da Confraria de Nossa Senhora da Lapa e São Bartolomeu desta Vila do Conde com João Monteiro e Matias de Passos, mestres pedreiros desta mesma.

Em nome de Deus, ámen.
Saibam quantos este público instrumento de escritura e arrematação e contrato, ou como em direito melhor haja lugar e dizer se possa, virem que no ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil e setecentos e cinquenta e oito anos, aos dois dias do mês de Março do dito ano, nesta Vila do Conde e nas casas da morada do Reverendo Prior Francisco de Lima e Azevedo Camelo Falcão, Juiz da Confraria de Nossa Senhora da Lapa, aonde eu tabelião fui vindo, aí, perante mim e testemunhas ao diante nomeadas e no fim deste instrumento assinadas, foram presentes partes outorgantes e aceitantes, a saber, de uma o dito Reverendo Prior e Juízes da dita Confraria e com ele o tesoureiro dela, João Carneiro e Azevedo Duarte, e bem assim mais os deputados seguintes: Manuel Leite de Brito, coadjutor da Igreja Matriz desta Vila, e o doutor António Luís Pereira Campos e Manuel Machado de Barros e João da Costa Pereira, todos moradores nesta dita Vila, e com eles, Luís Machado de Barros Vilas-Boas, Juiz da Confraria de São Bertolameu, a qual esta anexa à da Senhora da Lapa, e da outra João Monteiro e Mathias de Passos e João António Dias, mestres-pedreiros, todos moradores nesta mesma Vila de Conde e uns e outros reconhecidos de mim tabelião pelos próprios, de que dou fé, como também das testemunhas perante as quais e de mim tabelião pelos ditos Juízes e Oficiais, que também são irmãos da Confraria do Apóstolo São Bartolomeu em cuja capela se acha colocada a Imagem de Nossa Senhora da Lapa, por todos e por cada um in solidum foi dito e disseram que estando em acto de conversação e mesa pretenderam edificar de novo um templo em lugar do antigo para com toda a decência e veneração estarem as imagens de Nossa Senhora da Lapa e do Apóstolo São Bartolomeu, com as dos mais Santos e Santas e mais ima­gens que residiam na capela antiga, fazendo todos os acrescen­tamentos de comprimento, altura e largura e as mais mudanças de que precisariam para o bom ornato do mesmo templo e igreja, e para este efeito deram a dita obra de empreitada ao mestre João Monteiro e a seus consócios Matias de Passos e João António Dias e por preço de seiscentos e quinze mil réis na forma da planta e aponta­mentos que todos viram, leram e assinaram, como deles constavam, e porque queriam segurar a obrigação desta obra por escritura pública estipulando nela por contrato as condições com que há-de ser feita (…)

Enquanto o fragmento anterior dá conta sobretudo da ideia que preside à construção que se quer levantar, o que se segue contém informações bastante precisas sobre a obra, destinadas ao mestre-pedreiro construtor.

(…) o Corpo da Igreja há-de ter em vazio trinta e dois palmos e porão duas pias de pedra ao pé da porta principal para a água benta, que serão feitas de concha com todo o primor da arte, que terão dois palmos e meio de vão e três de comprido, e bem assim dois cachorros bem lavrados de quartela, com suas meias canas ao uso moderno, e juntamente uma porta falsa no lado do sul, correspondente à porta da entrada do púlpito da parte do norte; e neste lado na capela-mor fará uma porta para a sacristia com cinco palmos de largo e desde alto apilarada por fora e por dentro nos alicerces do corpo de toda a Igreja e capela-mor – lhe deixarão hum palmo de sapata pela parte de fora e por dentro hum quarto de palmo e os alicerces serão firmados em pedra firme e copiado da capela-mor; e arco cruzeiro até onde hão-de ir as grades, conforme mostra a planta, será feito de fiada, escu­dado, e enquanto às empenas da capela-mor e arco cruzeiro as farão com o ponto necessário para a boa expedição das águas; e, conforme o pedir a arte, as pirâmides do arco cruzeiro e capela-mor serão como as do frontispício; e o arco cruzeiro, sem embargo do que mostra a planta, o farão, no que diz respeito a largura, ou menos a largura dele, conforme eles oficiais o determinaram, e as sapatas do alicerce do corpo da Igreja, pela parte de fora, será de esquadria de friso; e que enquanto ao mais se fará a obra na forma da planta; e que com todas estas condições haviam por arrematada a dita obra pela dita quantia de seiscentos e quinze mil reis (…)

Quem foi o arquitecto?
O documento anterior não informa nada sobre o autor da planta. Terá sido Nicolau Nasoni como alguns pretendem?
Duvidamos. De qualquer modo, o eventual esclarecimento desta questão poderia passar por um conhecimento mais alargado da personalidade do prior vila-condense. Mas, mais que isso, a grandiosidade do projecto concretizado leva a crer que a ideia de construir esta igreja surgiu da euforia gerada pela pregação do Pe. Ângelo Sequeira. Nesse caso, a ideia da construção e da planta datariam apenas de 1757, o que põe de lado a eventual anterior intervenção de Nasoni. E, se se compara a fachada da Igreja da Lapa de Vila do Conde com fachadas comprovadamente deste arquitecto, a conclusão também não parece sugerir de imediato a sua autoria. Não foi Nasoni que desenhou a Igreja da Lapa do Porto.

Nota sobre o Prior Falcão
O Prior Falcão nasceu em 29 de Outubro de 1706, em São Simão da Junqueira, na aldeia do Cerqueiral, e foi baptizado pelo prior do mosteiro local, D. Dionísio de Santo António. Depois, a família veio residir para Vila do Conde. O pai chamava-se José Pinto Carneiro e era cavaleiro professo da Ordem de Cristo; o nome da mãe era D. Maria Luísa de Azevedo.
Iniciou actividade em Vila do Conde em 1737 (por uma tia, abadessa de Santa Clara, lhe ter dado a apresentação do priorado) e faleceu em 5 de Julho de 1759, com 52 anos. Em 27 de Março, tinha-lhe morrido um escravo. Nos derradeiros meses era reservatário, havendo um novo prior em efectividade.
Ao menos à sua morte residia na Rua da Igreja. 
A memória paroquial que escreveu é muito desenvolvida e cuidada e tem um título bem original: “Epílogo Topográfico”. Confessa que passou dois meses a prepará-la.
A escritura de arrematação da obra da Igreja da Senhora da Lapa foi lavrada em sua casa, o que pode significar que a sua saúde já não andaria bem naquele Março de 1858.
Não fez testamento.


[1] Esta escritura foi publicada por Eugénio de Andrea da Cunha e Freitas e republicada por José Emídio Martins Lopes.

Uma construção magnífica e custosa

O projecto do Prior Falcão
No Epílogo Topográfico, o Prior Falcão manifestou-se entusiasmado com a obra que estava a ser edificada, “de estrutura magnífica e custosa”. Mas devemo-nos perguntar: que é que o juiz da Lapa e prior de Vila do Conde quis construir?
Na escritura da arrematação fala-se de “edificar de novo um templo em lugar do antigo para com toda a decência e veneração estarem as imagens de Nossa Senhora da Lapa e do Apóstolo São Bartolomeu, com as dos mais Santos e Santas e mais ima­gens que residiam na capela antiga”.

Importante pormenor da fachada da Igreja da Lapa que elucida sobre as intenções de quem promoveu a construção deste templo.

Isto não é a mesma coisa que uma igreja nova de Nossa Senhora da Lapa. Havia muita coisa nova, mas não se rompia com o passado.
O projecto do Prior Falcão está expresso no frontão da igreja e nas duas imagens que sobre ele se colocaram.
As imagens do apóstolo São Bartolomeu e do mártir São Lourenço indicam a continuidade da devoção antiga que ali se promovia; a coroa, destacadíssima, no lugar mais nobre, representa Nossa Senhora (os reis portugueses tinham feito a entrega da sua coroa a Nossa Senhora).
Isto confirma o que se vê na escritura de arrematação da obra.

O exterior barroco
No site da Direcção-Geral do Património Cultural encontra-se uma nota histórica e artística sobre a Igreja da Lapa de Vila do Conde da qual vamos transcrever alguns excertos.
Depois de se recolher a opinião de que pode ter sido Nasoni o autor da sua planta, continua-se:

Uma das vistosas torres da Igreja da Lapa de Vila do Conde, a do norte.

Na verdade, as linhas finas e nervosas do frontispício da Lapa denotam uma influência rococó que se manifestava, por estes anos, nas obras de Nasoni, entre as quais destacamos a fachada da igreja da Misericórdia do Porto, de meados do século XVIII. 
De planta longitudinal, com nave e capela-mor rectangulares e sacristia adossada a norte, a igreja da Lapa exibe uma imponente fachada, seccionada por pilastras que a dividem em três panos, correspondendo os laterais às torres. O central é aberto por portal de verga curva, sobrepujado por frontão triangular de lanços, com remate formado por motivos concheados que se liga à janela superior que, por sua vez, faz elevar a linha da cornija que está na base do frontão triangular que termina o alçado. Este exibe lateralmente as imagens de São Bartolomeu e São Lourenço e, no vértice, um plinto sobre o qual se ergue a coroa real e a cruz. Nos panos das torres, uma janela com moldura relaciona-se com o relógio que as remata, levantando-se as sineiras já sobre a cornija. 
A coroa é real, mas neste caso é um símbolo mariano.
Embora esta nota não acentue a importância das torres no contexto da fachada frontal, o lugar delas é o mais destacado: grandiosas, injustificadas nos seus oito sinos, para efeito visual.
Para apreciar a sua grandiosidade e arte, paga a pena compará-las com outras quase contemporâneas, como as da Igreja do Mosteiro de São Simão da Junqueira ou as da Matriz da Póvoa de Varzim.
Excelente retábulo neoclássico do altar-mor.

O interior neoclássico

A diferença estilística entre a exuberância da fachada do templo e o seu interior é surpreendente. Ao barroco já próximo do rococó do exterior corresponde a talha neoclássica dos retábulos. A nota da Direcção-Geral do Património Cultural que já citámos exprime-se assim sobre ele:
Não é possível determinar em que época o templo ficou concluído, mas a campanha decorativa do interior, de características já neoclássicas, prolongou-se, com certeza, até ao início do século XIX. Destacam-se os retábulos colaterais, a sanefa que coroa o arco triunfal, e o retábulo-mor, em talha dourada e branca. 
O recente restauro desta talha beneficiou-a muito.
É possível que a morte do Prior Falcão em 1759 tenha afectado o impulso e o andamento das obras adiando-as.
A imagem da padroeira tem este rico enquadramento.

Mais três imagens da Igreja da Lapa

Esta bela porta barroca merece ser comparada com a do Convento do Carmo, com a da Igreja do Mosteiro da Junqueira e com a da Matriz da Póvoa.
Retábulo de São Lourenço.
A delicada sanefa do arco triunfal.

O medalhão do tecto da capela-mor
O Prof. José Emídio Martins Lopes chamou a atenção para o medalhão que decora o tecto da capela-mor.
Além duma minúscula representação de um Olho de Deus, encontra-se lá uma inscrição latina ininteligível: COLUND NEAIN FORAMINEV.
De facto, apesar dos muitos erros – não há uma única palavra correctamente escrita – ter-se-à pretendido registar o início duma frase do Cântico dos Cânticos 2, 14, que reza assim em latim:
Medalhão do tecto da capela-mor.

Columba mea in foraminibus petrae, in caverna maceriae, ostende mihi faciem tuam, sonet vox tua in auribus meis, vox enim tua dulcis et facies tua decora.
Versão portuguesa:
Minha pomba, nas fendas do rochedo,
No escondido dos penhascos,
Deixa-me ver o teu rosto,
Deixa-me ouvir a tua voz.
Pois a tua voz é doce
E o teu rosto encantador.
O Cântico dos Cânticos, livro de tema amoroso atribuído a Salomão mas escrito muitos séculos após a morte deste rei, é altamente poético e faz a delícia dos místicos, que o lêem alegoricamente, passando do canto do amor humano para o canto do amor divino[1].
No contexto da Igreja da Lapa, a leitura alegórica poderia apontar para a Sabedoria divina, o Espírito Santo, ou para Nossa Senhora como a Sede da Sabedoria.



[1] Esta passagem do sentido literal para o alegórico, em tempos, estendeu-se a todo o texto bíblico; o grande sábio vila-condense Pe. Manuel de Sá, SJ (cerca de 1530-1596), foi um dos primeiros estudiosos modernos a reivindicar o regresso ao seu sentido literal.

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