quinta-feira, 19 de março de 2015

Uma memorável missão apostólica

O Pe. Ângelo Sequeira e a segunda Lapa
A que chamamos segunda Lapa nasceu da pregação e dos livros do Pe. Ângelo Sequeira, cónego da Sé de São Paulo, nessa diocese nascido em 1707 e falecido no Rio de Janeiro, a 7 de Setembro de 1775.
Por meados do século esteve em Portugal. Aqui solicitou e obteve cartas de missionário apostólico e com elas percorreu por alguns anos as províncias do reino e parte das de Espanha, pregando a penitência e fazendo numerosas conversões. Voltou por fim ao Brasil e fundou na província de S. Paulo o seminário de Nossa Senhora da Lapa, falecendo com opinião de grande virtude.
Imagem de Nossa Senhora da Lapa que se encontra na Botica Preciosa a partir da qual depois se fizeram repetidíssimas esculturas. De facto, ela copiava uma imagem tridimensional que o autor costumava trazer consigo.

Encontram-se em linha duas obras suas: 
Botica preciosa e thesouro precioso da Lapa, em que como em botica e thesouro se acham todos os remedios para o corpo, para a alma e para a vidaÉ uma receita da vocação dos Santos para remedio de todas as enfermidades, Lisboa, 1754; com 4 estampas.

Livro do vinde e vêde, e do sermão do dia do juizo universal, em que se chama a todos os viventes para virem e vêrem umas leves sombras do ultimo dia, o mais tremendo e rigoroso do mundo, Lisboa, 1758.

O Pe. Ângelo Sequeira no norte de Portugal
O Prof. Francisco Ribeiro da Silva tem em linha dois trabalhos sobre a origem da Igreja de Nossa Senhora da Lapa, no Porto:
Encontra-se neles a melhor síntese que conhecemos sobre a sua acção do Pe. Ângelo Sequeira no Porto e na Diocese de Braga. Escreve o autor a certa altura, no primeiro destes trabalhos, referindo-se ao ano de 1756 ou 1757 e à campanha de pregação que o missionário brasileiro então empreendeu:
Entretanto, movido pelo desejo de espalhar pelo Reino o culto a Nossa Senhora da Lapa e talvez de angariar fundos para a construção da Igreja (da Lapa, no Porto), o Missionário pôs os pés ao caminho, dirigindo-se para Azurara, Vila do Conde, Esposende, Viana da Castelo, Ponte de Lima, Braga, Guimarães, inscrevendo grande cópia de Irmãos e juntando uma boa ajuda pecuniária que entregou na Mesa Administrativa: 1.521$170 réis! Como o Missionário se fazia acompanhar de um livro para registo dos novos irmãos, e como alguns (talvez a totalidade) desses livros se encontram no Arquivo da Irmandade, mostra-se possível, se necessário, reconstituir esse périplo do Fundador e a expansão da Irmandade da Lapa pelo Norte de Portugal.
O Pe. Ângelo Sequeira esteve assim em Vila do Conde e certamente na capela da Lapa.
 Imagem de Nossa Senhora da Lapa que se venerou na antiga Igreja Paroquial de Santagões (Bagunte).

A pregação do Pe. Ângelo Sequeira
Na página cinco da Botica Preciosa, afirma o Pe. Ângelo Sequeira sobre a importância da invocação de Nossa Senhora como Senhora da Lapa:
É Maria Santíssima a verdadeira Botica Preciosa, o verdadeiro Tesouro: tudo nos vem por suas mãos, como diz São Bernardo – omnia per manus Mariae. Finalmente é um tudo para tudo – omnibus omnia facta est. Ela é que nos livra de todos os perigos: Sed a periculis cunctis libera nos sempre, Virgo gloriosa et benedicta!
E, como nas boticas se acha a variedade de remédios, vai nesta uma receita dos santos advogados para todas as enfermidades para qualquer enfermo escolher a que mais lhe agradar; e saiba que, sobre todas as receitas e vocações, é Nossa Senhora da Lapa a principal advogada para todas as enfermidades corporais e espirituais. E assim, com estilo breve, direi alguns prodígios que Ela tem obrada para afervorar a devoção dos devotos que se fizeram valer dos remédios desta Botica Preciosa da Lapa e utilizar-se deste Tesouro Precioso da Lapa.
O que conta a seguir, passado consigo e com os fiéis que em Portugal e Brasil o ouviram, é impressionante. E de facto impressionou profundamente. E por isso multiplicaram-se os locais de culto onde se veneravam imagens da Senhora da Lapa esculpidas a partir da imagem bidimensional do livro.

Duas saudações a Nossa Senhora
Saudação a Maria
Deus vos salve, Maria, serva da Santíssima Trindade, humilíssima!
Deus vos salve, Maria, Filha do Eterno Pai, santíssima!
Deus vos salve, Maria, Esposa do Espírito Santo, amabilíssima!
Deus vos salve, Maria, Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo, digníssima!
Deus vos salve, Maria, irmã dos Anjos, formosíssima!
Deus vos salve, Maria, promessa dos Profetas, gloriosíssima!
Deus vos salve, Maria, Mestra dos Evangelistas, verdadeiríssima!
Deus vos salve, Maria, Doutora dos Apóstolos, prudentíssima!
Deus vos salve, Maria, Consolação dos Mártires, fortíssima!
Deus vos salve, Maria, fonte enchente dos Confessores, suavíssima!
Deus vos salve, Maria, honra e coroa das virgens, jucundíssima!
Deus vos salve, Maria, saúde e consolação dos vivos e dos mortos, prontíssima!
Sede comigo em todas as minhas tribulações, necessidades, angústias e enfermidades e alcançai-me o perdão de meus pecados, principalmente na hora da minha morte não me falteis, piíssima e beatíssima Virgem Maria!
(Botica Preciosa da Lapa, pág. 168.)

Saudação
Deus vos salve, Maria, Filha de Deus Pai!
Deus vos salve, Maria, Mãe de Deus Filho!
Deus vos salve, Maria, Esposa do Espírito Santo!
Deus vos salve, Maria, formoso templo da Divindade!
Deus vos salve, Maria, resplandecente lírio da Santíssima Trindade!
Deus vos salve, Maria, rosa agradável e toda a corte celestial!
Deus vos salve, Maria, Virgem das Virgens, Virgem poderosíssima, cheia de doçura e humildade, de que o Rei eterno e Supremo do Céu quis nascer e ser alimentado com o vosso leite!
Deus vos salve, Maria, Rainha dos Mártires, cuja alma santíssima foi cruelmente ferida pela espada de dor!
Deus vos salve, Maria, Senhora e Mestra do mundo, a quem foi dado todo o poder assim na terra como no Céu.
Deus vos salve, Maria, Rainha do meu coração, minha Mãe, minha guia, minha doçura e toda a minha esperança!
Deus vos salve, Maria, Mãe amabilíssima!
Deus vos salve, Maria, Mãe admirabilíssima!
Maria, Cheia de graça, o Senhor é convosco!
Maria, bendita sois entre as mulheres! Bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus Cristo! (…)
Botica Preciosa da Lapa, pág. 171 (saudação traduzida do francês).

Imagem de Nossa Senhora da Lapa que se venera em Arcos de Valdevez.

Longa citação do Livro do Vinde e Vede
O Pe. Ângelo Sequeira não falava só de Nossa Senhora da Lapa. A citação abaixo é recolhida do seu Livro do Vinde e Vede, que tem um longo título ao gosto do tempo: “Livro do Vinde e Vede e do Sermão do Juízo Final em que se Chama a todos os Viventes para Virem e Verem umas Leves Sombras do Último Dia, o mais Tremendo e Rigoroso do Mundo".
Mas nem todas as suas páginas são para apavorar.
A partir da página 175, num processo que lembra o Gil Vicente das Barcas, imagina o pregador desculpas que darão no Juízo Final muitos e diversificados membros da Igreja. A citação tem além do mais a virtude de nos mostrar um pouco do que eram os grupos sociais naquele século e algumas das relações que entre uns e outros se estabeleciam.
Dirão os pontífices: Senhor, a Igreja e a Cristandade era muito grande e estendida. Eu tinha muitos pastores, cardeais, bispos, arcebispos em que me fiava: suspendei o braço da vossa ira.
Dirá o Anjo:
Ó pontífices, cá no Céu temos muitos dos vossos antecessores, que cuidaram mais nas suas obrigações e foram pastores vigilantes; e destes mesmos temos cá muitos santos: Sanctis millibus[1].
Dirão os cardeais: Senhor, os negócios eram muito grandes e tínhamos bons teólogos e assessores e nos fiávamos neles: suspendei o vosso castigo.
Dirá o Anjo:
Cá temos muitos dos vossos antecessores com as mesmas circunstâncias e feitos santos. Sanctis millibus.
Dirão os arcebispos e bispos: Senhor, a diocese e bispado era muito comprido e estendido, tínhamos bons vigários e curas e bons visitadores: descansámos neles: suspendei a vossa ira.
Dirá o Anjo:
Cá temos muitos dos vossos antecessores que tiveram melhor cuidado que vós e não deram benefícios por cartas de favor nem ordenaram por empenhos, e destes temos cá muitos no Céu, muitos santos com as mesmas ocupações que vós tivestes. Sanctis millibus.
Dirão os vigários, reitores, abades e curas[2]: Senhor, a freguesia era muito grande e estendida, tinha bons operários, descansámos neles: suspendei a vossa ira.
Dirá o Anjo:
Nunca lestes o que vos estava avisando o Concílio nestas palavras Cum certissimum sit, excusationem pastorum non admitti si lupus oves comedat et pastor nesciat[3]. Pois sabei que cá no Céu temos muitos dos vossos antecessores com as mesmas ocupações feitos grandes santos. Sanctis millibus.
Dirão os clérigos e sacerdotes seculares: Senhor, nós éramos pobres, os rendimentos pequenos, as despesas grandes: tende compaixão de nós.
E dirá o Anjo:
Vós não lestes o que já de vós dizia São João Crisóstomo, que as vossas culpas e delitos eram causa de perdição do povo: Ruina populi mei ex maxima culpa sacerdotum fuit[4]? Pois sabei que cá no Céu temos muitos clérigos e sacerdotes com as mesmas circunstâncias que vós alegais e destes temos muitos santos. Sanctis millibus.
Dirão os prelados das religiões[5]: Senhor, os conventos estavam alcançados em dívidas e disfarcei alguma coisa nos meus súbditos para se recolherem às casas de seus pais e suas mães e passarem as férias, e me fiava neles: suspendei a vossa ira.
Dirá o Anjo:
Vós não lestes aquelas palavras Impossibile est aliquem ex Rectoribus salvos fieri[6]? Pois sabei que cá no Céu estão muitos dos vossos antecessores que tiveram os seus conventos empenhados, mas desempenharam as suas obrigações nas vigilâncias e por isso temos cá desses muitos: Sanctis millibus.
Dirão os reis, monarcas e príncipes: Senhor, o reino era muito grande, pusemos relações, ministros, governadores, descansávamos neles: suspendei a vossa ira.
Dirá o Anjo:
Cá temos no Céu muitos dos vossos antecessores mais cuidadosos e feitos grandes santos: Sanctis millibus.
Dirão os ministros, os governadores, os militares, os letrados, os oficiais: Senhor, os negócios eram de muita suposição, as demandas eram contínuas, os despachos actuais, as portas remotas: suspendei a vossa ira.
Dirá o Anjo:
Cá no Céu temos muitos com as mesmas circunstâncias e feitos grandes santos. Sanctis millibus.
Dirão os solteiros e solteiras e donzelas: Senhor, éramos pobres e desamparados: suspendei a vossa ira.
Dirá o Anjo:
Cá no Céu temos muitos com essas circunstâncias feitos grandes santos: Sanctis millibus.
Dirão os casados e pais de família: Senhor, a família era grande, muitos filhos e filhas, pouco era o que trabalhava para o seu sustento: suspendei a vossa ira.
Dirá o Anjo:
Cá no Céu temos muito pobres, pois deles é o reino dos Céus, que o souberam merecer com a sua pobreza, feitos grandes e grandes santos: Sanctis millibus.Dirão os filhos-famílias, os criados e criadas, escravos e escravas: Senhor, os nossos pais e senhores não nos assistiam com tudo o que nos era necessário, faltaram às suas obrigações, não nos ensinaram a doutrina cristã e nem a confessar as nossas culpas: suspendei a vossa ira.
E dirá o Anjo:
Cá no Céu temos muitos e muitas com esse desamparo feitos grandes santos: Sanctis millibus.
Dirão os lavradores: Senhor, nós estávamos muito ocupados com as nossas lavouras e colheitas, éramos muito pobres, não tínhamos criados para nos trabalharem, as rendas que pagávamos eram exorbitantes, pouco era o tempo para o serviço.
Dirá o Anjo:
Cá no Céu temos muitos que foram lavradores com essas mesmas pobrezas e colheitas e foram santos: Sanctis millibus.
Dirão as mulheres mundanas e pecadoras públicas: Senhor, nossos pais foram muito pobres e nos deixaram ao desamparo, fomos requestadas, rejeitámos, mas cresceu tanto a necessidade que nos prendemos por mera necessidade: suspendei a vossa ira.
Dirá o Anjo:
Cá no Céu temos muitas que foram tão pobres como vós e com as mesmas necessidades e com tudo isso foram muito santas: Sanctis millibus.
Dirão os sacristães das igrejas, tesoureiros, fabriqueiros: Senhor, as igrejas eram muito pobres, não tínhamos tempo para limparmos e assearmos os altares e as vestimentas e mais ornatos da igreja: suspendei a vossa ira.
Dirá o Anjo:
Cá no Céu temos muitos que tiveram as mesmas ocupações e foram limpos, asseados e santos: Sanctis millibus.
Pela citação passa quase toda a gente. Como de cada grupo há milhares de santos, também os destinatários do autor se podem salvar.
E era dito, não propriamente por um taumaturgo, mas por alguém cuja devoção era fonte de grandes graças e milagres. Alguém também próximo das pessoas, que se preocupava com elas. O Pe. Ângelo Sequeira, apesar de ser cónego da Sé de São Paulo e monsenhor, assinava “Ângelo Sequeira, pobre Missionário Apostólico”.
Pelas reacções de que nos chegou conhecimento indirecto, podemos concluir que ele foi arrebatador.


[1] Milhares de santos. Citação da Epístola de São Judas Tadeu.
[2] Basicamente, trata-se de párocos.
[3] Quando for bem certo, não seja admitida a desculpa dos pastores se o lobo come as ovelhas e o pastor não sabe.
[4] A ruína do meu povo foi da máxima culpa dos sacerdotes.
[5] Superiores das casas religiosas.
[6] É impossível que algum dos governantes se salve. Esta citação deve estar errada. Talvez fosse assim: Miror an fieri possit ut aliquis ex rectoribus sit salvus: Admiro-me que algum dos governantes possa ser salvo.

Sem comentários:

Enviar um comentário