quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

A RUA DA SENHORA DA LAPA


O século XIX

Com o virar do século, a devoção a São Bartolomeu não se extinguiu, mas perdeu com certeza muito do seu antigo vigor[1]. Começou-se a falar da Capela da Lapa, do lugar da Lapa e até da Rua da Lapa. Que a capela se chamava da Lapa já vem no assento de óbito de Manuel André falecido a 6 de Dezembro de 1790 e será confirmado depois de vários modos.

Aos seis dias do mês de Dezembro de mil setecentos e noventa faleceu repentinamente de uma apoplexia, andando trabalhando no seu campo, e sem sacramentos e testamento, Manuel André, lavrador, casado e morador junto à Capela da Senhora da Lapa, e aos sete dias do dito mês e ano foi sepultado na Matriz desta Vila (…)

Rua de S. Bartolomeu ou Rua Senhora da Lapa?

À rua que sempre se chamara Rua de São Bartolomeu, chamava-se, num assento de óbito de 1805, Rua da Senhora da Lapa:

Aos vinte e três dias do mês de Abril de mil oitocentos e cinco, faleceu com todos os sacramentos e com testamento Dona Francisca Constância Caetana Dinis, viúva que ficou de Francisco José Teixeira (ilegível), da Rua da Senhora da Lapa desta Vila, e no mesmo dia foi conduzida à Igreja de São Francisco, com enterro geral, e aí foi sepultada (…)

Os livros da décima conhecem uma D. Francisca Constância na Rua de São Bartolomeu, lado sul, sem dúvida junto ao aqueduto, ao menos desde 1773. Como é certamente a mesma do assento, deve ter enviuvado muito cedo. Devia ser contemporânea da construção da Igreja da Lapa e da colocação da talha neoclássica, para a qual pode ter contribuído.
Sendo assim, a Rua de S. Bartolomeu continuava com este nome nos livros da décima, mas ao nível popular já mudara há tempos para Rua da Senhora da Lapa.

A aguarela de Vivian

De começos do século há uma boa aguarela do pintor inglês Vivian que mostra a paisagem que se desfrutaria de um ponto pouco a norte da frente da Igreja da Lapa olhando para sul[2]. Vêem-se as magníficas torres da igreja e, à distância, o Convento de São Francisco, maior do que o suporíamos, o amontoado de edifícios do Mosteiro de Santa Clara e ainda, do lado direito, os arcos do aqueduto. Ao centro, em primeiro plano, dois homens, um que parece fidalgo e outro popular, entretêm-se em conversa com uma mulher jovem, sentada numa pedra. Por trás deles, além dum terceiro homem, ainda se admiram os campos que se estendem até aos conventos.
A aguarela dá-nos uma vista algo surpreendente sobre este recanto do pequeno concelho de Vila do Conde.

Em 1811

Em 1811, quando foi preciso arrecadar um imposto extraordinário para a guerra contra os napoleónicos, de entre irmandades e confrarias, a “devoção de Nossa Senhora da Lapa” foi uma das que mais pagou (depois da Ordem Terceira, da Confraria do Santíssimo e da das Almas).
Na Ordem Terceira, conserva-se uma imagem de Nossa Senhora da Lapa à imitação da do Pe. Ângelo de Sequeira. Pode vir ainda do século XVIII.

Os moradores do lugar de Nossa Senhora da Lapa em 1833

No rol da décima de 1833, menciona-se o lugar da Lapa. Eram estas as pessoas que nele viviam e a décima que pagavam:
Herdeiros de Ana Maria, por casas-torres – 240 réis.
José António Farinha, por casas altas – 280 réis; mais um maneio de 100 réis.
O Pe. José Francisco, de Formariz, por casa térrea – 100 réis.
António Fernandes da Lapa, por casas de sua morada – 160 réis; mais um maneio de 100 réis.
Um assento de baptismo 21 de Maio de 1834 menciona um Pe. João Fernandes Lapa, do lugar de Nossa Senhora da Lapa, que devia estar de lá ausente desde há anos e foi padrinho por procuração. Era naturalmente parente de António Fernandes da Lapa.
Numa relação, feita em 1836, de propriedades que pagavam foros a Santa Clara, há um item que diz:

Lugar de Nossa Senhora da Lapa
Os oficiais da Confraria de São Bartolomeu e Nossa Senhora da Lapa, pelo terreno em que fizeram a casa do ermitão, junto à capela, pagavam 10 réis.

Alguns moradores da Rua de S. Bartolomeu em 1833

Entre o lugar da Lapa e a Rua de S. Bartolomeu, devia mediar perto de meio quilómetro. Nesta rua havia gente nobre, gente endinheirada e certamente muita outra de poucas posses. Registam-se os nomes de quase todas as pessoas que aí viviam ou tinham haveres em 1833, o ano bem penoso em Vila do Conde que precedeu a chegada do liberalismo (assinalam-se com asterisco as que já aí residiam em 1805):
Lado norte, a partir de nascente:
José António Dias*, Rosa Maria Cardia*, João Martelinho Pereiro, Lourenço de Barros, Francisca Teresa, Pe. João José Teixeira de Faria, António José Dias, António José Gavino, José António Vairão, Pe. Manuel Gomes Dias, Manuel António Antunes, António Pereira Coutinho de Vilhena Rangel, Rafael Carneiro* e António Carneiro de Figueiredo.
Lado sul, também a partir de nascente:
António José Dias, José Alves*, José Pereira dos Reis, Manuel José Pereira dos Reis, António Fernandes, António Lopes Magalhães, Pe. Manuel Gomes Dias, Maria Rosa Joaquina*, António Pereira Coutinho de Vilhena Rangel e Manuel Pamplona.
Há nesta listas alguns nomes que nos merecem particular atenção: António Pereira Coutinho de Vilhena Rangel, Rafael Carneiro (de Sá Bezerra), Manuel Pamplona, António José Dias, Pe. João José Teixeira de Faria, José António Dias e Maria Rosa Joaquina.
Os três primeiros pagavam todos muito e pelo menos dois deles erem nobres ricos e influentes. António Pereira Coutinho de Vilhena Rangel era solteiro e dono da casa onde hoje está o Centro de Memória. Manuel Pamplona deveria ser seu familiar.
Os quatro últimos viriam a ser todos benfeitores da Lapa.
Há vários casos de moradores que têm propriedades de um e outro lado da rua.

O Pe. João José Teixeira de Faria e a sua sala de aula

O Pe. João José Teixeira de Faria na verdade não era padre pois não se ordenara, mas chamavam-lhe assim, como chamavam a outros que também tinham frequentado o seminário.
Desde 1826 a cerca de 1855, ele foi professor oficial de Gramática e Língua Latina, que era a única cadeira do ensino secundário que se ministrava em Vila do Conde.

A sua sala de aula ou escola – uma divisão da sua casa – ficava do lado norte da “Rua de S. Bartolomeu”, ao pé do aqueduto, provavelmente quase em frente da rendosa loja de comércio de Maria Rosa Joaquina. À frente voltaremos a ele.
As aulas ocupariam duas horas e meia de manhã e outras tantas de tarde, haveria um mês de férias, o de Setembro, e também pausas pelo Natal e pela Páscoa.
Foi grande benfeitor da Igreja da Lapa e com certeza foi ele que custeou os medalhões do tecto dela.

Enterros no adro da Igreja da Lapa em tempo de peste

Em Julho e Agosto de 1833, abateu-se sobre Vila do Conde uma devastadora epidemia de cólera. A princípio, os cadáveres foram enterrados na Matriz, como era usual, mas depois, na semana de entre 3 e 9 de Agosto, passaram a ser sepultados no adro da “Capela da Senhora da Lapa”. Enterraram-se aí 31, quase todos de mulheres.
Por essa altura, já os Mindeleiros, que os vila-condenses em Junho tinham altivamente recusado na Vila, se encontravam no Porto, cercados pelas tropas miguelistas.



Neste assento de óbito de 1790, a antiga Capela de São Bartolomeu já é designada por Capela da Senhora da Lapa (o lavrador Manuel André, “morador junta à Capela da Senhora da Lapa” morrera repentinamente, duma apoplexia).


Neste assento de óbito de Dona Francisca Constância Caetana Dinis (1805), diz-se que a falecida residira na Rua da Senhora da Lapa. A devoção a São Bartolomeu estava a ser esquecida ou pelo menos secundarizada.


Reprodução da aguarela de Vivian (começos do século XIX) que mostra as torres da Igreja da Lapa, Santa Clara, S. Francisco e ainda parte do aqueduto.


Retrato do “padre” João José Teixeira de Faria; o livro na mão recorda a sua actividade de professor.


Assentos de óbito de pessoas falecidas na peste de 1833 e sepultadas no adro da Igreja de Nossa Senhora da Lapa.




[1] Não são conhecidos ex-votos dedicados a este apóstolo…
[2] Por cerca de 1990 vimos no numa montra no Porto o original ou uma cópia muito perfeita desta aguarela. Era uma pintura encantadora, cheia de luz. Recordamo-nos que nos pediram por ela nove contos.
CISMÁTICOS NA LAPA


O cisma liberal

Os liberais, que em 1834 tomaram o poder em Portugal, eram de inspiração maçónica e não hesitaram em mergulhar o país em cisma, cortando relações com a Santa Sé, extinguindo as Ordens Religiosas, fechando os seminários e colocando à frente das dioceses homens que lhes eram fiéis e não tinham em conta a obediência ao Papa.
O encerramento dos conventos de São Francisco e do Carmo – mais de um mês antes do decreto do Mata-Frades – há-de ter tido um efeito profundo na vida religiosa de Vila do Conde e por isso também na Igreja da Lapa.
O Mosteiro de Santa Clara, como as outras casas religiosas femininas, não foi encerrado, mas entrou em morte lenta por não poder admitir noviças.

A Misericórdia, instituição cismática

Nos anos que precederam a vitória liberal, na direcção da Misericórdia de Vila do Conde estavam só daqueles homens que depois se manifestaram a favor do novo regime. E a situação naturalmente piorou após os liberais se apoderarem da direcção da câmara.
Em Junho de 1834, o prior vila-condense, que se chamava António Francisco Lopes e era vila-condense, da Rua dos Pelames (era devoto de Nossa Senhora da Lapa), foi expulso em Junho por Paulino de Carvalho, que naturalmente era afecto ao liberalismo e ao cisma. Mas, em 1839, este acabou também expulso. Sucedeu-lhe o terrível Domingos da Soledade Silos, que era uma combatente cismático e paroquiou Vila do Conde até 1850. Fizeram-no pregador régio, tendo pregado algumas vezes para a corte na Igreja da Lapa do Porto. Tem retrato na Misericórdia.
Os benfeitores da Igreja da Lapa que se referirão no capítulo seguinte foram todos benfeitores da Misericórdia.

A Igreja da Lapa no inquérito de 1845

Porventura por verificar que a Igreja da Lapa da sua paróquia tinha semelhanças muito próximas com a do Porto, o Pe. Silos falou dela com entusiasmo em 1845:

A Igreja da Lapa, templo riquíssimo pela arquitectura e tão decente no seu interior que Sua Ex.cia o Senhor D. Frei Caetano Brandão, quando o visitou, lhe concedeu licença perpétua para nele se expor o Santíssimo Sacramento. Foi fundação dos povos e fiéis da vila e são ainda hoje os que a sustentam; tem os necessários e decentes paramentos para celebrar.

Compare-se com esta insípida nota de 1825:

A capela de Nossa Senhora da Lapa é venerada pelos confrades e devotos; está decente.

Ex-voto de Rita da Piedade de Sousa

O ex-voto de Rita da Piedade de Sousa, de 1845, testemunha um grande milagre, a recuperação da visão por esta senhora vila-condense!
Sua legenda:

Testemunho de gratidão que dá a Jesus, Maria e José Rita da Piedade de Sousa, desta Vila, a qual, estando inteiramente cega e sujeitando-se a operação de catarata, por intercessão da Sagrada Família, recuperou a sua vista em 1845.

A gratidão à Sagrada Família supõe a já referida reorientação da devoção na Capela da Senhora da Lapa.
As roupagens das figuras sagradas são bastante simples, algo ocidentais. As da miraculada, do médico e do outro homem e mulher devem ser bastante próximas das do uso naquele ano de 1845.
Este ex-voto vem, naturalmente, do tempo do prior Domingos da Soledade Silos.
Este ex-voto de Rita da Piedade de Sousa deve-se encontrar no Porto, levado por Rocha Peixoto. Muito importante a representação da Sagrada Família.

Os medalhões do tecto da Lapa

O tecto da Igreja da Lapa ostenta dois medalhões, um no do corpo da igreja, outro no da capela-mor. O primeiro apresenta-se num estado de conservação bastante bom, metade do segundo está apagado[1].
 O do corpo da Igreja, além do medalhão propriamente dito, com a sua moldura também pintada, possui uma larga envolvência pictórica, com motivos de procedência clássica, destinada certamente a realçar a sua importância e a evitar que ele ficasse muito isolado na vasta superfície do tecto.
É aceitável concluir que os dois formam um conjunto, que se complementam para promover uma única mensagem.
O do corpo da igreja está inclinado para a esquerda e mostra um pastor muito enroupado e de cajado, entre as suas ovelhas, que se acolhe à sombra duma pequena árvore. Por sobre a cabeça, no alto, paira um pequeno grupo de anjos músicos (todos têm instrumentos, mas sempre diferentes). O quadro pode representar o anúncio do nascimento do Salvador aos pastores de Belém que se lê no Evangelho de São Lucas (cap. 2, 8-14).
No medalhão da capela-mor, a parte correspondente ao pastor do anterior está bastante apagada, como já foi dito, talvez devido a alguma persistente infiltração de água.
Ao cimo, representa-se um minúsculo Olho de Deus[2] e logo a seguir foi colocada uma inscrição latina coleante que não tem uma única palavra correctamente grafada. Leitura da inscrição:
COLUND NEAIN FORAMINEV.
O Prof. José Emídio Martins Lopes deu-se ao cuidado de a identificar e concluiu que queria reproduzir o início desta frase do Cântico dos Cânticos 2, 14:
Columba mea in foraminibus petrae, in caverna maceriae, ostende mihi faciem tuam, sonet vox tua in auribus meis, vox enim tua dulcis et facies tua decora.
Versão para português:
Minha pomba, nas fendas do rochedo,
No escondido dos penhascos,
Deixa-me ver o teu rosto,
Deixa-me ouvir a tua voz.
Pois a tua voz é doce
E o teu rosto encantador.
Sob a inscrição distingue-se com clareza o desenho duma pomba.
O Cântico dos Cânticos, livro de tema amoroso atribuído a Salomão mas escrito mais de sete séculos após a morte deste rei, é altamente poético e faz a delícia dos místicos, que o lêem alegoricamente, passando do canto do amor humano para o canto do amor divino[3].
No caso da Igreja da Lapa, pretendeu-se certamente que o pastor e os anjos do primeiro medalhão e a pedra do segundo se referissem a Belém e à Lapa do Presépio. “Columba mea in foraminibus petrae” (“Minha pomba, nas fendas do rochedo, no escondido dos penhascos”) deve equivaler a “Jesus Menino, na gruta da Lapa”.
Se isto for verdade, os medalhões teriam sido pintados em meados do século XIX quando era prior de Vila do Conde o Pe. Domingos da Soledade Silos e na Rua da Lapa vivia o professor de latim João José Teixeira de Faria.
Ignoramos quem tenha sido responsável pelos erros da frase latina.

O concelho de Vila do Conde alargado

Se a capela original de São Bartolomeu era como que uma sentinela à entrada nascente de Vila do Conde, isso mudou inteiramente com o alargamento do concelho pelos liberais em 1836, que o cresceram muito nessa direcção.
Apesar se então já haver entre a Vila e Azurara, a importância da Rua de São Bartolomeu ainda diminuíra pouco, o que só acontecerá com a abertura das novas estradas a partir da década de 60.

A anexação de Formariz a Vila do Conde

Provavelmente em 1867, a freguesia de Formariz foi anexada a Vila do Conde, já que nesse ano terminam os assentos paroquiais e no ano seguinte a junta de Vila do Conde o era também de “Formariz, anexa”. Embora antes já estivesse integrada no concelho, quebrava-se assim alguma barreira que restasse para a adesão dos fiéis de Formariz à Lapa[4].




Irmão da Misericórdia, o Pe. Silos tem lá também o seu retrato.


Ex-voto de Rita da Piedade de Sousa.
  

Medalhão do tecto do corpo da Igreja da Lapa.



Medalhão do tecto da capela-mor.




[1] Na Igreja Paroquial de Arcos, que vem de 1855, abunda a pintura quer no tecto quer nas paredes da capela-mor e mesmo nas do corpo do templo. Na de Touguinhó, há o painel do retábulo-mor, que deve remontar a 1842 ou anos seguintes. Os medalhões da Igreja da Lapa têm assim um enquadramento em termos de pintura ao serviço da divulgação duma mensagem religiosa.
[2] Há uma representação do Olho de Deus num ex-voto de 1838 à Santa Cruz de Balasar e na capela-mor da Igreja Paroquial de Arcos.
[3] Esta passagem do sentido literal para o alegórico foi, em tempos, estendida a todo o texto bíblico; o grande sábio vila-condense Pe. Manuel de Sá, SJ (1530-1596), foi um dos primeiros estudiosos modernos a reivindicar o regresso ao sentido literal.
[4] Esta anexação não foi pacífica. Segundo documentação do Arquivo Municipal, ainda em 1876 “o juiz, tesoureiro, devotos e zeladores da Igreja de Formariz” se recusavam a dar ao inventário da Matriz “as alfaias, paramentos e fundos daquela Igreja”. O governador civil mandou que o caso seguisse para o tribunal.
TABELA DE LEGADOS ESTABELECIDOS EM BENEFÍCIO DE NOSSA SENHORA DA LAPA


Guarda-se na sacristia da Igreja da Lapa um quadro com a “Tabela de Legados estabelecidos em benefício de Nossa Senhora da Lapa”. Muito do que com grandes cuidados de caligrafia lá se escreveu (sobretudo a parte final) está hoje ilegível ou apagado. Mas é possível identificar a maior parte dos nomes dos benfeitores, que são de meados do século XIX. Foram eles: Manuel de Jesus Castelo e mulher, João José Teixeira de Faria, Maria Rosa Joaquina, José António Dias, João António Dias, António José Dias, D. Maria do Patrocínio Ferreira Barbosa, João José Moreira (ilegível) de Faria e Rita Maria dos Reis.
Trata-se no geral de benfeitores da Santa Casa da Misericórdia e assim cinco deles estão bem identificados no livro Santa Casa da Misericórdia de Vila do Conde. Um Legado. 1510-1975. I volume. Além de informação escrita, até lá vêm os seus retratos.

1.      Manuel de Jesus Castelo e mulher, Maria Joaquina Carneiro

Os mais notáveis destes benfeitores da Igreja de Nossa Senhora da Lapa foram Manuel de Jesus Castelo e esposa, que legaram 390.000 réis à Misericórdia com obrigação de dar anualmente, “no dia do SS. Nome de Jesus, 3.200 réis para a festa de Nossa Senhora da Lapa, que consistiria em missas a canto chão (ilegível) e mais a obrigação das missas rezadas seguintes: uma missa no dia de Nossa Senhora da Lapa, uma no dia de Santo André, outra no dia de São Bartolomeu”.
Manuel de Jesus Castelo, que ocorre ligado à câmara desde 1824 ao menos, morou na Praça Velha e morreu a 13 de Dezembro de 1856, tendo o seu corpo sido sepultado no Adro da “Igreja ou Capela de Nossa Senhora da Lapa”. Deixou os seus bens ao sobrinho José do Nascimento Castelo. Nos anos difíceis de 1835/36, foi vereador fiscal, então o vereador com mais responsabilidade, chegando a presidir algumas vezes às sessões. Foi igualmente piloto-mor da barra.

2.      João José Teixeira de Faria

João José Teixeira de Faria, a que já nos referimos, era filho de Domingos Teixeira Soares e Rosa Miquelina, e nasceu cerca de 1775, viveu na “Rua de São Bartolomeu”, próximo do aqueduto. Deu os primeiros passos para a ordenação sacerdotal, mas não foi além de clérigo in minoribus, apesar de no seu retrato na Misericórdia ser identificado como padre[1]. Foi professor oficial de gramática e língua latina desde 1826 até cerca de 1855 e por isso o seu nome é referido frequentemente em documentos municipais; deve ter ensinado latim a gerações sucessivas de jovens vila-condenses e mesmo a jovens de algumas terras não integradas no concelho.
Em 1843, sucedeu ao Pe. Silos como ministro da Ordem Terceira.
Deixou um legado “para se fazer no dia de Natal a festividade do nascimento do Menino Deus com o Senhor exposto, sermão e missa cantada”; estes actos religiosos teriam lugar na Igreja da Lapa, caso contrário não haveria razão para ele figurar na Tabela de Legados. O seu donativo à Misericórdia remonta a 8 de Fevereiro de 1846.

3.      Maria Rosa Joaquina

Maria Rosa Joaquina era uma comerciante solteira da Rua dos Ferreiros com propriedades na Rua de São Bartolomeu; deixou à Misericórdia um legado de um conto e meio. Para a Capela da Senhora da Lapa determinou que fosse rezada uma missa aos domingos e dias santos de guarda por sua alma. Faleceu em 21 de Outubro de 1848.

4.      José António Dias

José António Dias era também comerciante, casado, morador na Rua do Barroso (actual Rua do General Lemos), mas com bens na Rua de S. Bartolomeu, e deixou igualmente um conto e meio à Misericórdia. Como a benfeitora anterior, também deixou que na Lapa fosse rezada uma missa aos domingos e dias santos de guarda por sua alma. Faleceu em 15 de Setembro de 1851.

5.      João António Dias

João António Dias legou à Misericórdia dois contos e duzentos mil réis. O estado da Tabela de Legados, onde consta o seu nome, não nos permitiu identificar o legado deixado à Lapa. No livro da Misericórdia não vimos o seu nome.

6.      António José Dias

António José Dias, também comerciante, solteiro, “morador à Senhora da Lapa”, legou à Misericórdia um conto e setecentos mil réis[2]. Inscreveu-se como irmão da Misericórdia em 15 de Fevereiro de 1846 e faleceu logo em 18 do mesmo mês e ano.
Dos três homens anteriores, dois, se não todos, deveriam ser irmãos e, até pela posição social que deviam possuir, tiveram alguma intervenção política, em especial o primeiro, que foi procurador da câmara no início do período liberal.

7.      D. Maria do Patrocínio Ferreira Barbosa

Esta senhora terá deixado à Confraria da Lapa 39.000 réis, com obrigações que não conseguimos especificar.

8.      Rita Maria dos Reis

No livro da Misericórdia consta uma Rita Xavier dos Reis que deixou “uma missa rezada aos dias santos dispensados na Capela de Nossa Senhora da Lapa desta Vila por alma de seu falecido irmão Padre João de Sousa Reis Cerqueira”. Como na Tabela dos Legados ocorre uma Rita Maria dos Reis, pode tratar-se da mesma pessoa.

9.      D. Teresa Ludovina de Azevedo Mendanha Coutinho

O nome desta senhora não está legível na Tabela dos Legados, mas muito provavelmente constava nela. Fez testamento em 5 de Junho de 1851 e deixou à Capela de Nossa Senhora da Lapa 200.000 réis.

10.  José do Nascimento Castelo

José de Nascimento Castelo, sobrinho de Manuel de Jesus Castelo, há-de ter sido um homem abastado e muito activo. Era natural da Ericeira e porventura filho de algum oficial que tivesse prestado serviço no Castelo. Viveu na junto à Praça Nova. Teve papel importante na Ordem Terceira. O seu nome ocorre em muitos documentos do arquivo municipal. Fez dois testamentos, um em 7 de Julho de 1890 e outro em 25 de Março de 1895, deixando 400.000 réis à Senhora da Lapa, mas não foram propriamente um donativo ante o pagamento de dinheiro que estava na sua posse.
Não há razão para não constar da tabela.
Era juiz da Confraria da Lapa em 1877 e faleceu em 14 de Abril de 1894.

E o arquivo da Confraria?

Os livros dos irmãos, os livros de inventário, as sucessivas reformas dos estatutos, os livros dos legados, das contas, nada disso se conservará? Parece-nos pouco provável…
Aliás, Ouvidor da Costa, em 1991, citou o Tombo de 1906.

Rua da Lapa

A designação de Rua da Lapa, em substituição da anterior de Rua da Senhora da Lapa, deve ter sido adoptada cerca de 1870, talvez após a via ter sido alargada e melhorada no seu piso. Prolonga-se actualmente pela área da antiga Formariz até Touguinha, sendo uma das mais extensas de Vila do Conde.
Foi também na década de 1870 que se abriu a linha do caminho-de-ferro, que tão profundamente marcou a paisagem próxima.

Dois documentos de 1876

Conserva-se no Arquivo Municipal um documento com o título de “Instituições de Piedade” que é o “questionário a que refere a Portaria do Ministério do Reino de 12 de Junho de 1876”, e diz respeito à Confraria de Nossa Senhora da Lapa e São Bartolomeu[3]. Consta das “condições de existência” e “fundo”. Algumas das respostas do questionário às condições de existência têm para aqui interesse. Assim, os estatutos teriam sido renovados em 11 de Novembro de 1866, a “igreja em que se acha erecta” era a “Capela de Nossa Senhora da Lapa” e o número de irmãos de ambos os sexos cifrava-se em 250. Esta informação sobre os irmãos é relevante: eram poucos e seriam principalmente das proximidades. Os moradores da Vila dedicar-se-iam às várias confrarias da Matriz e capelas, à Misericórdia.
Um segundo documento, de 21 de Abril de 1877, informa que “José de Nascimento Castelo[4], juiz da Confraria de Nossa Senhora da Lapa”, solicitava o prolongamento do prazo para organizar as contas.




Início da “Tabela de Legados estabelecidos em benefício de Nossa Senhora da Lapa”.


Retrato de Manuel de Jesus Castelo na Misericórdia.


Retrato da esposa de Manuel de Jesus Castelo.                                          


Retrato de Maria Rosa Joaquina.


Retrato de José António Dias.


Retrato de António José Dias.


Cartela da casa que foi de Camilo Araújo, com data de 1903. Em frente à Igreja da Lapa construiu-se uma casa nova em 1908.


Edital de 1873 que anuncia a arrematação das obras da construção da estrada de Vila do Conde à ponte d’Este, que naturalmente incluía a Rua da Lapa.





[1] A designação de padre aplicar-se-ia então mesmo a clérigos de ordens menores.
[2] Um documento da Misericórdia dá-o como residente na “Rua de São Bartolomeu”.
[3] Oficialmente ainda era assim, como é hoje, que se designava a Confraria.
[4] José de Nascimento Castelo era sobrinho de Manuel de Jesus Castelo e viveu próximo dos Bem-Guiados, mas viveu também na Praça Nova.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Procissão de Velas na véspera de 13 de Maio

Como em anos anteriores, também na véspera do 13 de Maio deste ano teve lugar uma concorrida Procissão de Velas da Matriz para a Igreja da Lapa.
Vários aspectos nos impressionaram nesta manifestação de devoção mariana; salientamos dois, a preparação dos tapetes e a procissão propriamente dita.
Na preparação dos tapetes empenharam-se três ou quatro equipas: uma que os trouxe da igreja até ao entroncamento da rua que vem do estádio, outra que se ocupou da parte entre a linha do metro e o início dos jardins da Casa da Memória e a terceira que levou o tapete até ao Largo de São Sebastião.
Escusado é dizer que estes tapetes supõem um aturado trabalho antecedente de quase quinze dias.
O resultado é óptimo. Nas extremidades foram preparadas artísticas composições em louvor da Mãe de Deus, como se pode verificar abaixo.
À procissão acorreu cerca dum milhar de pessoas, ao que nos dizem mais que nos anos anteriores, num manifestação muito genuinamente religiosa, sem pretensões turísticas nem foguetes.

De salientar também a colaboração das autoridades locais, promovendo uma melhor iluminação, o policiamento e no final a limpeza da rua.


Artística composição floral com motivos marianos junto ao escadório da Lapa.


Aspecto da confecção dos tapetes.


Reinício do tapete a seguir à linha do metro, para poente.


Início dos tapetes no largo de São Sebastião. Composição também com temas marianos.

quinta-feira, 19 de março de 2015



Santos representados na Igreja da Lapa


Na Igreja da Lapa há imagens de muitos santos. De São Bartolomeu, há cinco imagens, de Nossa Senhora da Lapa três; de São Lourenço pelo menos três, etc. Isso tem a ver com devoções populares que nela se sucederam. Vamos colocar aqui uma breve nota sobre cada um.
Para os mais antigos, é conveniente ver o que diz a Flos Sanctorum. Apesar do título latino, este livro, a Flor dos Santos, está em português e foi usado durante séculos como fonte de inspiração para os pregadores.

Bartolomeu
O nome Bartolomeu deve significar filho de Ptolomeu. Crê-se que com ele se refere o apóstolo Natanael, a quem Jesus elogiou ao dirigir-se-lhe pela primeira vez. Como os outros apóstolos, foi martirizado.
A imagem mais antiga deste apóstolo e mártir na Igreja da Lapa deve ser a que se guarda no cofre e que teve um relicário ao peito[1]; a da sacristia, ao lado norte do retábulo, sugere-se que ele foi crucificado; a do retábulo-mor da igreja assemelha-se à do cofre, sem referência ao tipo de martírio; a do retábulo lateral a ele dedicado tem a originalidade de o apresentar como vencedor do demónio (ao modo de Nossa Senhora da Conceição ou do arcanjo São Miguel), o que também se verifica na que está sobre a fachada da igreja. Mas a vitória de São Bartolomeu sobre o demónio deve ser a mesma de todos os santos (os inimigos da alma, recorde-se, são mundo, demónio e carne). O resto deve ser apenas lenda.

Lourenço
Diácono romano de origem hispânica e do século III, queimado vivo sobre um braseiro, o seu nome consta no cânon romano da missa e no documento seiscentista das indulgências concedidas à Capela de São Bartolomeu.

Nossa Senhora da Lapa
Sobre esta invocação de Nossa Senhora, não temos nada a acrescentar ao que dissemos.

Sagrado Coração de Jesus
A devoção ao Sagrado Coração de Jesus foi intensamente divulgada principalmente em finais do século XIX, princípios do XX. Em 1899 o Papa Leão XIII fez a Consagração do mundo ao Sagrado Coração de Jesus (a pedido duma religiosa alemã então residente no Porto, a Beata Maria do Divino Coração). A basílica poveira desta invocação começou a ser construída em finais do século XIX. Foi sem dúvida esta divulgação que levou a que se colocasse na igreja a respectiva imagem.

Nossa Senhora das Neves
Consta que houve na Lapa a imagem de Nossa Senhora das Neves. Esta devoção teve origem em Roma, na Basílica de Santa Maria Maior, e é assim muito antiga. Há capelas dedicadas a esta invocação em Bagunte e na Azurara. Não se conserva hoje na Igreja da Lapa a respectiva imagem.

Nossa Senhora de Fátima
A invocação de Nossa Senhora de Fátima teve origem nas aparições aos Pastorinhos na Cova de Iria, em 1917. Esta devoção tende a sobrepor-se a outras invocações marianas antigas, o que se está a passar também na Lapa.

António de Lisboa
Importante santo português franciscano cuja acção teve grande impacto em todo o mundo cristão.
Nascido em Lisboa num dos anos finais do século XII, Santo António faleceu em Pádua, em 13 de Junho de 1231. Primeiramente foi frade agostinho no Convento de São Vicente de Fora, em Lisboa, indo posteriormente para o Convento de Santa Cruz, em Coimbra, onde aprofundou os seus estudos religiosos através da leitura da Bíblia e da literatura patrística, científica e clássica. Tornou-se franciscano em 1220 e viajou muito, vivendo inicialmente em Portugal, depois na Itália e na França. No ano de 1221 fez parte do Capítulo Geral da Ordem de Assis, a convite do próprio São Francisco, o fundador, que o convidou também a pregar contra os albigenses em França. Foi transferido depois para Bolonha e de seguida para Pádua, onde morreu aos 36 (ou 40) anos. Foi o primeiro doutor da Igreja da ordem franciscana.

Águeda
Natural de Sicília, Águeda ou Ágata é uma das muitas santas e santos mártires das perseguições romanas anteriores à liberdade concedida à Igreja por Constantino. Era mencionada no cânon romano da missa.

André
O apóstolo Santo André era irmão de São Pedro, natural de Betsaida, junto ao mar da Galileia, não longe de Cafarnaum, a cidade próxima da estrada de Damasco donde a pregação de Jesus irradiou para a Galileia. Terá sido discípulo de São João Baptista. Nos Evangelhos é repetidamente referido, o que o mostra como um dos mais destacados do grupo dos Doze. Foi martirizado.

Apolónia
Natural de Alexandrina, no Egipto, Santa Apolónia foi vítima de terrível perseguição que suportou heroicamente. Era invocada contra as dores de dentes.

Ifigénia
Santa Ifigénia é uma santa etíope dos primeiros tempos do cristianismo, que a lenda relaciona com São Mateus. Não conhecemos a sua imagem na Igreja da Lapa.

Inácio
Presumimos que o Santo Inácio que se venerou na Igreja da Lapa fosse Santo Inácio de Antioquia, um importante santo dos começos do cristianismo, que deixou escritos.

Luzia
Santa Luzia, natural de Siracusa, Sicília, é, como as Santas Águeda e Apolónia, também uma virgem e mártir cristã dos anos finais da perseguição romana contra a Igreja. É padroeira dos oftalmologistas e daqueles que têm problemas de visão.

Marcos
Discípulo de São Pedro e de São Paulo, autor do segundo evangelho. Na realidade o Evangelho de São Marcos é anterior ao de São Mateus, já que foi São Marcos o autor da primeira narrativa evangélica.

Matias
De acordo com os Actos dos Apóstolos, São Matias foi escolhido para ocupar o lugar do traidor e suicida Judas.
Na base da imagem que se encontra na Igreja da Lapa um letreiro latino tem estas duas palavras Mathias vocor, que significam “sou chamado Matias”.

Nicolau
O bispo São Nicolau terá morrido em 350 na Turquia; ficou conhecido pela sua caridade e afinidade com as crianças. Devido à sua imensa generosidade e aos milagres que lhe foram atribuídos, foi canonizado e tornou-se um símbolo ligado directamente ao nascimento do Menino Jesus. Daí ocorrer associado ao presépio e à Sagrada Família. São Nicolau é um dos santos mais conhecidos da cristandade.

Ovídio
Santo Ovídio foi um dos primeiros bispos de Braga; no lugar de Santo Ovídio dos arredores do Porto foi construída a Igreja da Lapa daquela cidade. Popularmente chamavam-lhe Santo Ouvido e por isso invocavam-no para males de audição. Santo bastante popular, havia em Santa Clara uma pintura que o representava.

Sagrada Família
A Sagrada Família é a família de Jesus; compunha-se do próprio Cristo menino e jovem, sua Mãe Maria e São José. Tudo nesta família única é misterioso: um menino e jovem que é Deus Connosco, sua Mãe, cheia de graça, santíssima, e um homem mais comum, justo, São José, socialmente o esteio do pequeno grupo.
Na Igreja da Lapa, a devoção à Sagrada Família é consequência da associação recente da Senhora da Lapa à Lapa de Belém.

Terezinha
Santa Terezinha (1873-1897) era francesa, fez-se carmelita com 16 anos e morreu aos 24. Deixou um livro, História de uma Alma, que lhe deu a celebridade. Foi declarada doutora da Igreja, um título só atribuído a mais três santas. Canonizada em 1925, foi desde logo muito popular em toda a cristandade.



[1] O relicário era importante sobretudo em tempos medievais. Conhecem-se referências antigas a relíquias nos mosteiros de  Rates e São Simão da Junqueira.