domingo, 24 de junho de 2018

PALESTRA SOBRE A HISTÓRIA DA IGREJA DE NOSSA SENHORA DA LAPA

No dia 8 de Setembro próximo, às 22 horas, o autor deste blogue vai proferir uma palestra sobre a “História da Igreja de Nossa Senhora da Lapa” onde espera dar uma visão actualizada do que se pode saber sobre esta igreja e a sua confraria. Fará uma síntese sobre o passado da Capela de São Bartolomeu (que precedeu a igreja), da vinda à Vila do Pe. Ângelo Sequeira e da nova devoção a Nossa Senhora da Lapa que ele divulgava, da evolução desta devoção em direcção à infância de Jesus, da construção da igreja comparando com o que foi feito nalgumas outras contemporâneas e próximas, dum ou outro dos ex-votos, das grandes manifestação populares a que esse devoção deu azo na segunda metade do século XIX e começos do XX, dos benfeitores conhecidos, etc.
Esta palestra enquadra-se no âmbito da festa de Nossa Senhora da Lapa. Haverá também uma exposição de fotografias sobre o passado da igreja.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

NOVIDADES

Andamos a actualizar o nosso estudo da Igreja de Nossa Senhora da Lapa de Vila do Conde e temos bastantes e relevantes novidades, não sabemos é ainda quando as colocaremos em linha. É o caso dum documento de 30 páginas, de 1758, que recebemos do ADB, e de outro, só de meia página, da mesma origem, de 1792. No primeiro, pedia-se autorização para benzer a capela-mor renovada de Nossa Senhora da Lapa e São Bartolomeu e no segundo pedia-se autorização para criar um "recolhimento", espécie de asilo, para mulheres e crianças pobres junto à igreja.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

I – A CAPELA DE SÃO BARTOLOMEU

Vila do Conde teve, e tem, muitas capelas. Uma voltada para o rio, outra para o mar, capelas junto a antigas estradas, capelas à face de antigas e movimentadas ruas, capelas em colinas.


A origem

Em 26 de Maio de 1466, a câmara mandou limpar o caminho para Barreiros:
Item mandaram que sexta-feira, depois do Corpo de Deus, sejam todos juntos os moradores desta vila desde onde mora Lopo Borges para Cima de Vila e também os do termo para se correger o caminho de Barreiros.
Sabendo-se onde ficava Barreiros (junto a Formariz e próximo, para norte, da actual Igreja da Lapa), fica claro que se trata do mesmo caminho que um século mais tarde se identificará como de São Bartolomeu ( “caminho que vai para São Bartolomeu”). Isto é, um século mais tarde já havia a Capela de São Bartolomeu e em 1466 ainda não existia.
Ela deve ter sido construída cerca de 1550, depois da de São Sebastião, que data de 1548.
Era tempo da Contra-Reforma e era tempo em que devia estar a ser reconstruída a parte residencial do Mosteiro de Santa Clara.
A Capela de São Bartolomeu teve a ver com a entrada no termo da Vila para quem vinha de Barcelos, Braga e Guimarães e certamente alguma coisa com a Forca de Barreiros e com o Campo da Cruz que por ali se identificaram.

Barreiros da Forca e Forca de Barreiros

Em 1258, os homens de Formariz, quando se queixavam do esbulho de terras de que culpavam Vila do Conde, a certa altura, indicaram que o limite de freguesia passava por Barreiros da Forca. Esta referência à forca podia remeter para alguma coisa de muito antigo e por isso não passar de um topónimo sem grande interesse. Mas não era assim.
Cerca de 250 anos depois, em 8 de Novembro de 1502, por altura em que as obras da Matriz estavam em andamento, o “desembargador dos feitos reais” ordenou a construção duma nova forca cujos custos seriam suportados por uma finta sobre os moradores da vila. Ela ficaria “em Barreiros, onde a outra está, e que se faça de pedra, com suas ameias, o melhor que se puder fazer”, diz uma deliberação do dia 14. A obra foi entregue ao mestre pedreiro biscainho Pedro Baião por 3000 reais, mais 100 para cal.
Em 1502, ainda não existiria a capela de São Bartolomeu, mas, depois que se construiu, muitas vezes terão passado em frente dela os cortejos dos sentenciados.
O enforcamento era coisa horrível e o espectáculo deprimente continuava ainda por alguns dias. Porque o fariam ali no limite com Formariz e na principal entrada da Vila por terra?


Os primeiros documentos

No arquivo municipal, conservam-se vários documentos do século XVI que fazem menção de São Bartolomeu, entendendo-se que falam da Capela de São Bartolomeu.
Um dos mais antigos é uma acta de vereação que manda que “não levem nem lavem os bacios no ribeiro de Gamelinhas [1] que está na entrada da vila, vindo de São Bartolomeu”. Estabeleceu-se a pena de cinquenta réis por cada vez para os prevaricadores. O documento tem ao fundo a data de 1560.
Ao cimo, numa espécie de título, diz: “Que não vão lavar os bacios ao ribeiro das Gamelinhas”.
Alguns anos antes, em 1556, já se referia “o caminho que vai para São Bartolomeu, que é na saída desta vila”.
Num outro documento, de 1580, Francisco Gonçalves do Cabo faz entrega de significativa quantia aos vereadores, “em São Bartolomeu, ao marco que divide o termo desta vila com o da vila de Barcelos”, acaso por estar Vila do Conde impedida devido à peste.
Em 10 de Outubro do mesmo ano, duma procuração diz-se que foi passada em São Bartolomeu por impedimento da peste.




Esta imagem, porventura do séc. XV, deve ter sido a mais antiga venerada na capela de que aqui se trata e pode ter vindo da Igreja Matriz anterior à actual. Ao fundo do peito possuía um relicário.


Termo camarário de 1560 para “que não vão lavar os bacios ao ribeiro das Gamelinhas”. As duas últimas palavras antes das assinaturas dizem “São Bertolameu” (São Bartolomeu). A concluí-lo, lê-se a indicação do ano.



[1] Ainda há uns 60 anos se lavava roupa nesse ribeiro.


Já se viu que o Pe. Manuel Álvares reedificou a Capela de São Bartolomeu. Ignora-se a data do seu nascimento, mas sabe-se que em 13 de Julho de 1614, quando foi recebido como irmão da Santa Casa da Misericórdia, morava na Rua de São Bartolomeu.
O Pe. Manuel Álvares faleceu em 1652, de “morte apressada”, sem ter ocasião para fazer testamento. Há a tradição de que a sua morte terá resultado duma queda talvez do cimo do tecto da capela.
Este sacerdote está sepultado do lado sul da Igreja da Lapa. No seu assento de óbito escreveu-se:

Nos oito dias do mês de Agosto de mil seiscentos e cinquenta e dois anos faleceu o Pe. Manuel Álvares com o sacramento de Santa Unção somente por falecer de morte apressada e estar incapaz dos mais sacramentos. Diz o encomendado Agostinho Fernandes não fez testamento.

Veja-se o mesmo assento na grafia original:

“Em os oito dias do mes de Aguosto de mil seis centos e sinquoenta e dous annos faleceo o p.e Manoel Alz com o sacramento de Santa Ounçam som.te por falecer de morte apressada e estar incapax dos mais sacramentos dis o encomendado Agus.tho fes. não fes testamento”.

Na margem esquerda ainda se lê:

“Fes hum off.o de clériguos e hum de des e dous de nove.
O P.e M.el Alz”.

Curioso que o autor desta nota lateral tenha o nome do falecido.
Em 1721, o prior vila-condense escreveu que em São Bartolomeu estava sepultado “um sacerdote de boa opinião, chamado Manuel Álvares”. Esta observação é bastante mais importante do que parece uma vez que viveram na Vila muitos sacerdotes concubinários e que por isso não mereceram boa opinião.

O Sumário das Indulgências

Na sacristia da Igreja da Lapa, conserva-se uma pauta de indulgências concedida pelo papa Urbano VIII: deve vir do séc. XVII e as indulgências foram obtidas em tempo do Pe. Manuel Álvares e com certeza por seu empenho[1]. É um documento que demonstra grande zelo da parte de quem actuou para que fosse concedido.
O Sumário das Indulgências concedidas aos confrades da “Confraria do Glorioso Apóstolo São Bartolomeu” é um generoso documento dum tempo em que as pessoas apostavam muito no sufrágio dos mortos; ora estas indulgências dispensavam-no ao menos em parte. Há-de ter tido um efeito muito marcante no aumento do número dos irmãos e nas visitas à capela.
Embora dê relevo à Confraria de São Bartolomeu, já fala em Nossa Senhora, São Lourenço e São Matias.
Deve tratar-se mesmo dum sumário, da versão resumida dum documento maior vindo com certeza em latim.

Sumário das Indulgências concedidas aos confrades da Confraria do Glorioso Apóstolo São Bartolomeu desta Vila do Conde por autoridade do nosso mui Santo Padre Urbano VIII, nosso senhor, ora na Igreja de Deus Presidente.
Primeiramente, todo o fiel cristão, homem ou mulher, que entrar nesta Confraria do Glorioso Apóstolo São Bartolomeu, no primeiro dia da sua entrada, se verdadeiramente arrependidos de seus pecados, confessados e comungados, alcançam indulgência plenária e remissão de todos os seus pecados.
Concede Sua Santidade aos confrades da dita confraria, assim aos que são como aos que adiante forem, que no artigo da morte, se verdadeiramente confessados e comungados e arrependidos de seus pecados, ou se o não puderem fazer, ao menos, contritos, invocarem o Santíssimo Nome de Jesus com a boca ou com o coração, lhes concede Sua Santidade indulgência plenária de seus pecados.
Sua Santidade concede a todos os confrades e consorores que são ou forem, que, verdadeiramente confessados e comungados, visitarem a Igreja do Glorioso Apóstolo São Bartolomeu[2], das primeiras vésperas até ao sol-posto do mesmo dia, em todos os anos, e aí rogarem a Deus pela concórdia dos príncipes cristãos e pelas extirpações das heresias e pela exaltação da Santa Madre Igreja, e semelhantemente indulgência plenária e remissão de todos seus pecados.
Outrossim concede Sua Santidade aos confrades que verdadeiramente confessados e comungados visitarem a mesma Igreja do Glorioso Apóstolo nos dias da festa da Assunção e Anunciação de Nossa Senhora e do Glorioso Mártir São Lourenço e do Apóstolo São Matias, des(de) as primeiras vésperas até ao sol-posto dos mesmos dias, indulgência plenária e remissão de todos seus pecados.
Todas as vezes que estiverem às missas ou outros ofícios divinos que se celebrarem, ou em público ou em particular, por (palavra ilegível) via feitos ou derem pousada aos pobres ou compuserem pazes entre os inimigos ou também aqueles que acompanharem os corpos dos defuntos às sepulturas ou quaisquer procissões que se fazem de licença do ordinário e acompanharem ao Santíssimo Sacramento, assim nas procissões como quando o levam aos feridos que estando impedidos, dado o sinal para isso da campana, disserem uma vez o Pai-Nosso e Ave-Maria ou também rezarem um Pai-Nosso e Ave-Maria pelas almas do Purgatório e dos confrades defuntos ou encaminharem alguém que vá desencaminhado ao caminho da salvação e ensinarem os preceitos de Deus aos ignorantes ou excitarem (exercitarem) outra qualquer outra obra pia e todas as vezes por qualquer das ditas obras lhes relaxa Sua Santidade sessenta dias de perdão e penitência a ele (palavra ilegível) impostas ou por outro qualquer modo devidas na forma costumada da Igreja.
Estas indulgências quer Sua Santidade que valham para sempre.


Assento de óbito do Pe. Manuel Álvares.


Campa do Pe. Manuel Álvares junto à parede sul da Igreja de Nossa Senhora da Lapa.


Retrato do Papa Urbano VIII. Urbano VIII foi papa entre desde 1623 a 1644, em tempo por isso do Pe. Manuel Álvares.

  
Este Sumário de Indulgências e a tábua da Lenda da Berengária, em Santa Clara, foram com certeza escritos pelo mesmo artista no século XVII.




[1] O artista que escreveu na madeira este documento foi com certeza o mesmo que escreveu a “tábua” da Lenda da Abadessa Berengária que se conserva no Mosteiro de Santa Clara.
[2] Não era propriamente igreja, mas uma pequena capela.
A RUA DE SÃO BARTOLOMEU

Em tempos antigos a Rua de São Bartolomeu era o principal acesso à Vila por terra. Quando o seu porto foi muito movimentado, por ela circulavam necessariamente muitas das mercadorias que eram exportadas ou chegavam de fora. Barcelos, Braga, Guimarães seriam destinos principais. Também por lá passavam as pessoas quando iam para a ponte d’Ave para seguirem para o Porto.

Nos livros da décima

Conservam-se uns livros antigos destinados a registar, ano atrás de ano, quem devia pagar o imposto da décima e a respectiva quantia. O registo começava a ser feito na Rua de S. Bartolomeu. Isto é, era com as casas desta rua e seus donos que durante dezenas e dezenas de anos eles se iniciavam.
Igualmente o Prior Falcão, na memória paroquial, iniciou a lista das capelas da Vila pela de São Bartolomeu.
Esta tradição devia conservar memória de tempos muito antigos, de quando a câmara e por isso igualmente o centro da Vila ficavam na Praça Velha.
A Rua de S. Bartolomeu ia apenas dos arredores do aqueduto para poente; mas era uma rua bastante habitada.
Entre o aqueduto e a Igreja da Lapa, haveria apenas uma ou outra casa ou nenhuma. Esta igreja ficava “fora” da Vila, como outros lugares rurais do pequeno concelho.
Mais do que homenagear o apóstolo S. Bartolomeu, com a atribuição do seu nome à actual Rua da Lapa, indicava-se uma direcção, a direcção da Capela de São Bartolomeu.
Documentos mais recentes mencionam um pequeno lugar da Lapa, junto à igreja.

A Capela de Sebastião, a Casa de São de Sebastião, a Rua de S. Sebastião e o Largo de São Sebastião

A Rua de São Bartolomeu terminava junto à Capela de São Sebastião, que ficava onde hoje se identifica o Largo de S. Sebastião. Este santo também dava nome a uma rua, a Rua de S. Sebastião, que devia vir de sul, do lado do rio, a uma travessa, que corresponderia porventura ao começo da actual Rua das Mós, e a uma casa, a Casa de São Sebastião.
Da capela de São Sebastião o Prior Falcão diz apenas que nela se venerava a imagem do padroeiro e que era da administração da câmara.
A imagem de S. Sebastião foi levada da sua capela para a Igreja do Convento dos Carmelitas em 1836 – quando já não havia carmelitas em Vila do Conde. A partir desta data, na capela passou a venerar-se Santa Ana. Quando se pensou em abrir a estrada nova que vinha do Porto para a Póvoa, a Capela de Santa Ana foi demolida e os seus “pertences” foram levados para a que então se construiu no Cemitério e que foi benzida em 1859. Assim, quer o retábulo do altar-mor quer as imagens dos altares laterais estão lá.

A Casa de São Sebastião

Até recentemente, a casa onde actualmente está o Centro de Memória era identificada como a Casa de São Sebastião. O nome vinha-lhe naturalmente da capela que havia em frente.
Embora desconheçamos inteiramente o contributo que os seus sucessivos donos deram para a devoção desenvolvida em S. Bartolomeu e depois na Igreja da Lapa, é de crer que não tenham ficado alheios a ela.
O seu mais antigo proprietário conhecido foi Manuel Azevedo e Ataíde, comendador da Ordem de Cristo. Como em 1672 a vendeu a João Carneiro Rangel, cavaleiro do hábito de Cristo, foi contemporâneo do Pe. Manuel Álvares que restaurou a Capela de São Bartolomeu. Faleceu em 1677.
O proprietário seguinte foi Francisco Carneiro de Sotomaior, capitão-mor e cavaleiro da Ordem de Cristo.
A casa passou depois para João Carneiro Rangel de Sotomaior, que faleceu em 1738, herdando-a sua filha bastarda Maria Joana Carneiro Rangel de Sotomaior, que casou com Luís Inácio Pereira Coutinho de Vilhena, governador do Castelo de Vila do Conde. Este casal é assim coevo da construção da Igreja da Lapa.
Possuiu a seguir a casa José Pereira Coutinho de Vilhena, nascido em 1750, que casou com Luísa Casimira de Lira e Vasconcelos, senhora do Paço de Briteiros, concelho de Guimarães.
O herdeiro de José Pereira Coutinho de Vilhena foi António Pereira Coutinho de Vilhena Carneiro Rangel, tenente-coronel de milícias de Vila do Conde, que faleceu em 1842, sem filhos legítimos, sucedendo-lhe o irmão Luís Pereira Coutinho de Vilhena Carneiro Rangel de Vasconcelos. A casa esteve ainda na posse de duas irmãs destes até ser vendida, em 1856, ao Dr. José Joaquim de Figueiredo de Faria, a quem sucedeu Jorge Brandão Figueiredo de Faria[1].

Largo de São Sebastião

Depois que foi demolida a capela que fora de São Sebastião, depois que se mudaram os nomes da Rua e Travessa de São Sebastião, depois que à Casa de São de São Sebastião se retirou o painel que a identificava como tal, só a breve indicação toponímica de Largo de São Sebastião conserva memória da capela que ali houve.
  

Os “pertences” da capela que tinha sido de S. Sebastião foram depois utilizados na capela que se encontra no Cemitério.


Antiga Casa de São sebastião como a conhecemos hoje. Ao tempo da construção da Igreja da Lapa era possuída por Luís Inácio Pereira Coutinho de Vilhena, governador do Castelo de Vila do Conde. Há um assento de baptismo de 5 de Julho de 1867 em que é padrinho por procuração o “bacharel José Joaquim Figueiredo de Faria, morador na Rua da Senhora da Lapa”. Tinha adquirido esta casa dez anos antes e deve tê-la reconstruído quando já havia a estrada para a Póvoa a que hoje se chama Rua 5 de Outubro. A casa aparenta grande uniformidade de estilo. José Joaquim Figueiredo de Faria, advogado, foi administrador do concelho, presidente da câmara e deputado.




[1] Na casa fronteira à de São Sebastião também viveram nobres.

A PRIMEIRA LAPA


As três Lapas

Na memória paroquial o Prior de Vila do Conde pareceu dar a entender que a invocação da Senhora da Lapa era recente na Capela de São Bartolomeu, mas uma referência documental de 1738 já associa esta capela à Senhora da Lapa.
O mesmo nome de lapa, porém, aponta para três fases de devoção diferentes.
A primeira seria a que precedeu a pregação do Pe. Ângelo de Sequeira, a segunda a que se seguiu a ela e a terceira a que sucedeu à anterior, depois que foi esquecida a pregação daquele sacerdote.
Chamamos-lhes as três Lapas[1].
A primeira teve necessariamente origem em Sernancelhe, fonte donde se espalhou essa devoção por Portugal e colónias e mesmo para Espanha. Nessa divulgação teve lugar especial a pregação dos jesuítas.
A segunda, que explanaremos à frente, deve-se, como foi dito, ao Pe. Ângelo Sequeira.
A terceira caracteriza-se por identificar a lapa com a Lapa de Belém, do Presépio, com a consequente devoção ao Deus-Menino e à Sagrada Família.

A primeira Lapa

Copiamos do site do Santuário da Lapa em Sernancelhe a lenda que terá originado a devoção à Senhora da Lapa:

Diz a lenda que, em 1498, uma pastorinha de doze anos, de nome Joana, muda de nascença, introduzindo-se por entre as fendas das rochas encimadas pela grande lapa, aí encontrou uma linda imagem da Virgem, que ali teria sido escondida há mais de quinhentos anos por umas religiosas fugindo a uma perseguição.
A devoção e todo o carinho que a menina dedicou à imagem valeram-lhe uma especial protecção da Virgem que por milagre lhe concedeu o dom da fala.
Depressa se divulgou o milagre, originando uma crescente afluência de peregrinos jamais interrompida até aos dias de hoje.
Os primeiros devotos prepararam uma gruta debaixo da lapa, onde entronizaram a imagem, construindo ao lado uma pequena ermida.
Em 1576, a Lapa foi confiada aos Padres da Companhia de Jesus, sediados no Colégio de Coimbra. Estes construíram, então, o actual Santuário, abrigando a penedia no seu interior. Em 1685 iniciaram a construção do "Colégio da Lapa", contíguo ao Santuário.
Daqui partiu a devoção para os mais variados pontos do país e do mundo, chegando à Índia e ao Brasil. Esta expansão foi facilitada pela actividade missionária dos mesmos Padres Jesuítas, aos quais estava confiado este Santuário.
A Senhora da Lapa, em Portugal, e Santiago de Compostela, na Espanha, chegaram a ser, em tempos, os dois Santuários mais importantes da Península Ibérica.


Outra imagem de São Bartolomeu. A cruz pretende indicar que este apóstolo foi martirizado por crucifixão. Esta imagem deve ser a que precedeu a actual e por isso do tempo da colocação da talha neoclássica.


Página de rosto dum Missal Romano da Lapa de 1726.



O lintel desta porta tem a data de 1739. A casa, na actual Rua da Lapa, pertencia a Formariz, mas ficava próxima da antiga Capela de São Bartolomeu.




[1] Segundo o dicionário, lapa tem entre outros estes significados: “pequena gruta ou cavidade aberta na rocha” e ainda “laje que, sobressaindo, forma debaixo de si um abrigo natural”. São estes os significados a atribuir à palavra quer se pense em Sernancelhe quer na lapa do Presépio.

O RETÁBULO JOANINO


Em 31 de Dezembro de 2017, dia da Sagrada Família, foi apresentado ao público o retábulo joanino restaurado que se conserva na sacristia da Igreja da Lapa.
Este retábulo pertenceu à Capela de São Bartolomeu de que resultou, por reconstrução de raiz e ampliação, a actual igreja.
É fácil verificar que se trata dum produto de talha joanina[1]. Daí a datar a sua execução com uma aproximação bastante grande é um passo curto. De resto, existem na Vila outros retábulos do mesmo estilo e cujas datas de colocação se conhecem (1734-35).
É posterior ao da Capela de São Sebastião, que era de mais qualidade[2].
Apresentamo-lo aqui como se encontrava antes do restauro.


Retábulo joanino da sacristia da Igreja da Lapa antes recente restauro.


Esta coluna salomónica, com trepadeiras de rosas e capitéis coríntios, tem nítidas semelhanças com as colunas joaninas dos retábulos laterais da Matriz.


Um atlante do retábulo joanino.




[1] O adjectivo joanino relaciona-se com o rei D. João V, que ocupou o trono de 1707 a 1750.
[2] É estranho que, em 1758, a capela estivesse em ruína sendo o retábulo tão recente.