quarta-feira, 13 de maio de 2015

Procissão de Velas na véspera de 13 de Maio


Como em anos anteriores, também na véspera do 13 de Maio deste ano teve lugar uma concorrida Procissão de Velas da Matriz para a Igreja da Lapa.
Vários aspectos nos impressionaram nesta manifestação de devoção mariana; salientamos dois, a preparação dos tapetes e a procissão propriamente dita.
Na preparação dos tapetes empenharam-se três ou quatro equipas: uma que os trouxe da igreja até ao entroncamento da rua que vem do estádio, outra que se ocupou da parte entre a linha do metro e o início dos jardins da Casa da Memória e a terceira que levou o tapete até ao Largo de São Sebastião.
Escusado é dizer que estes tapetes supõem um aturado trabalho antecedente de quase quinze dias.
O resultado é óptimo. Nas extremidades foram preparadas artísticas composições em louvor da Mãe de Deus, como se pode verificar abaixo.
À procissão acorreu cerca dum milhar de pessoas, ao que nos dizem mais que nos anos anteriores, num manifestação muito genuinamente religiosa, sem pretensões turísticas nem foguetes.

De salientar também a colaboração das autoridades locais, promovendo uma melhor iluminação, o policiamento e no final a limpeza da rua.


Artística composição floral com motivos marianos junto ao escadório da Lapa.


Aspecto da confecção dos tapetes.


Reinício do tapete a seguir à linha do metro, para poente.


Início dos tapetes no largo de São Sebastião. Composição também com temas marianos.

quinta-feira, 19 de março de 2015

A antiquíssima capela de São Bartolomeu

Vila do Conde teve, e tem, muitas capelas. Uma voltada para o rio, outra para o mar, capelas junto a antigas estradas, capelas em colinas. A origem da de São Bartolomeu, que precedeu a da Lapa, é desconhecida, mas teve a ver com a entrada no termo da Vila para quem vinha de Barcelos e talvez alguma coisa com o Campo da Forca e com o Campo da Cruz que por ali se identificaram. Possivelmente, vem ainda da Idade Média. Era lá o limite com Formariz.
Em 1758, o Prior de Vila do Conde, que então era Juiz da Confraria de Nossa Senhora da Lapa, na lista das capelas locais, colocou em primeiro lugar a de São Bartolomeu:
Capela de São Bartolomeu, de fundação antiquíssima, situada na entrada desta vila para a parte da terra. Foi sempre capela do povo e de administração pública. De presente, por se achar arruinada, tem também a invocação de Nossa de Nossa Senhora da Lapa e se está ampliando e edificando de estrutura magnífica e custosa. Foi reedificada naquele ser antigo pelo Padre Manuel Álvares, que nela jaz sepultado.
Esta imagem de São Bartolomeu, possivelmente do séc. XV ou XVI, deve ter sido a mais antiga venerada na Capela de Vila do Conde. Ao fundo do peito possuía um relicário.

No século XVI
No arquivo municipal, conservam-se vários documentos do século XVI que fazem menção de São Bartolomeu, entendendo-se que falam da Capela de São Bartolomeu.
Um dos mais antigos vem de 1560 e é uma acta de vereação que avisa que “não levem nem lavem os bacios no ribeiro de Gamelinhas que está na entrada da vila, vindo de São Bartolomeu” (linhas antes das assinaturas na cópia abaixo). O documento tem ao fundo a data de 1560. Estabeleceu-se a pena de pena de cinquenta réis por cada vez para os prevaricadores.
A última palavra deste documento, antes das assinaturas, é São Bartolomeu.

Ao cimo diz: “Que não vão lavar os bacios ao ribeiro das Gamelinhas”.
Alguns anos antes, em 1556, já se referia “o caminho que vai para São Bartolomeu, que é na saída desta vila”.
Num outro documento, de 1580, Francisco Gonçalves do Cabo faz entrega de significativa quantia aos vereadores, “em São Bartolomeu, ao marco que divide o termo desta vila com o da vila de Barcelos”, possivelmente por estar Vila do Conde impedida devido à peste.
Em 10 de Outubro do mesmo ano, duma procuração diz-se que foi passada em São Bartolomeu por impedimento da peste.

O Pe. Manuel Álvares, restaurador da capela de São Bartolomeu
Já se viu que o Pe. Manuel Álvares reedificou a Capela de São Bartolomeu. Pelo seu assento de óbito, sabe-se que faleceu em 1652 e de “morte apressada”, isto é, de qualquer ataque fulminante, sem ter feito testamento. Segundo um documento da Santa Casa da Misericórdia de Vila do Conde, ele era de São Bartolomeu, da rua do mesmo nome.
Conserva-se uma tábua de indulgências concedida pelo papa Urbano VIII: a tábua em concreto, física, deve ser do séc. XVIII, mas as indulgências nela referidas foram obtidas em tempo do Pe. Manuel Álvares e com certeza por seu empenho. É um documento que demonstra grande zelo da parte de quem actuou para que fosse concedido[1].
Este sacerdote está sepultado do lado sul da Igreja da Lapa. No seu assento óbito escreveu-se o seguinte
Em os oito dias do mês de Agosto de mil seiscentos e cinquenta e dois anos faleceu o Pe. Manuel Álvares com o sacramento de Santa Unção somente por falecer de morte apressada e estar incapaz dos mais sacramentos. Diz o encomendado Agostinho Fernandes não fez testamento.
Assento de óbito do Pe. Manuel Álvares.

Veja-se o mesmo assento na grafia original:
“Em os oito dias do mes de Aguosto de mil seis centos e sinquoenta e dous annos faleceo o p.e Manoel Alz com o sacramento de Santa Ounçam som.te por falecer de morte apressada e estar incapax dos mais sacramentos dis o encomendado Agus.tho fes. não fes testamento”.
Na margem esquerda ainda se lê:
“Fes hum off.o de clériguos e hum de des e dous de nove. O P.e M.el Alz”.

A primeira Lapa

As três Lapas
Embora o Prior de Vila do Conde tenha parecido dar a entender em 1758 que a invocação da Senhora da Lapa era recente na Capela de São Bartolomeu, uma referência documental de 1738 já associa esta capela à Senhora da Lapa.
Mas o mesmo nome de Lapa aponta para três fases de devoção diferentes.
A primeira seria a que precedeu a pregação do Pe. Ângelo Sequeira; a segunda a que ele promoveu; e a terceira a que sucedeu à anterior depois que foi esquecida a pregação daquele padre e que é a da actualidade. Chamamos-lhes as três Lapas.
A primeira teve necessariamente a última origem em Sernancelhe, fonte donde se espalhou essa devoção por Portugal e colónias (Índia, África e Brasil) e mesmo para Espanha. Nessa divulgação teve lugar especial a pregação dos jesuítas.
A segunda, que explanaremos à frente, deve-se, como foi dito, ao Pe. Ângelo Sequeira.
A terceira caracteriza-se sobretudo pela substituição da Lapa de Sernancelhe pela Lapa de Belém, com a consequente devoção ao Deus-Menino e à Sagrada Família.
Copiamos a lenda do site do Santuário da Lapa em Sernancelhe:
Diz a lenda que, em 1498, uma pastorinha de 12 anos, de nome Joana, muda de nascença, introduzindo-se por entre as fendas das rochas encimadas pela grande lapa, aí encontrou uma linda imagem da Virgem, que ali teria sido escondida há mais de quinhentos anos por umas religiosas fugindo a uma perseguição.
Rosto dum Missal Romano da Lapa de 1726.
A devoção e todo o carinho que a menina dedicou à imagem valeram-lhe uma especial protecção da Virgem que por milagre lhe concedeu o dom da fala.
Depressa se divulgou o milagre, originando uma crescente afluência de peregrinos, jamais interrompida até aos dias de hoje.
Os primeiros devotos prepararam uma gruta debaixo da lapa, onde entronizaram a imagem, construindo ao lado uma pequena ermida.
Em 1576, a Lapa foi confiada aos Padres da Companhia de Jesus, sediados no Colégio de Coimbra.
Estes construíram, então, o actual Santuário, abrigando a penedia no seu interior.
Em 1685 iniciaram a construção do "Colégio da Lapa", contíguo ao Santuário.
Daqui partiu a devoção para os mais variados pontos do país e do mundo, chegando à Índia e ao Brasil. Esta expansão foi facilitada pela actividade missionária dos mesmos Padres Jesuítas, aos quais estava confiado este Santuário.
A Senhora da Lapa, em Portugal e Santiago de Compostela, na Espanha, chegaram a ser, em tempos, os dois Santuários mais importantes da Península Ibérica.
O lintel desta porta tema data de 1739. A casa pertencia a Formariz mas ficava próxima da antiga capela de São Bartolomeu.


[1] O artista que escreveu na madeira este documento foi com certeza o mesmo que escreveu a “tábua” da Lenda da Abadessa Berengária que se conserva no Mosteiro de Santa Clara.

A Igreja de Nossa Senhora da Lapa

A escritura de arrematação da Igreja da Lapa
A Escritura de arrematação da Igreja da Lapa é um longo documento notarial onde se encontram informações valiosas.
Em 2 de Março de 1758, o tabelião dirigiu-se a casa do Prior Francisco de Lima e Azevedo Camelo Falcão, Juiz da Confraria de Nossa Senhora da Lapa, e aí se lavrou a escritura[1]. Esta data é assim anterior de alguns meses em relação à da memória paroquial, redigida em 14 de Maio do mesmo ano.
Deve-se estranhar que o Prior fosse juiz da Confraria, o que pode significar que ele se deixara galvanizar pelas pregações do Pe. Ângelo Sequeira e queria em pessoa conduzir as obras no novo e grandioso templo.
A Confraria de Nossa Senhora da Lapa já existiria de há muito? Não sabemos dizer.
Escritura de arrematação e contrato que fazem os Juízes e mais Oficiais da Confraria de Nossa Senhora da Lapa e São Bartolomeu desta Vila do Conde com João Monteiro e Matias de Passos, mestres pedreiros desta mesma.

Em nome de Deus, ámen.
Saibam quantos este público instrumento de escritura e arrematação e contrato, ou como em direito melhor haja lugar e dizer se possa, virem que no ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil e setecentos e cinquenta e oito anos, aos dois dias do mês de Março do dito ano, nesta Vila do Conde e nas casas da morada do Reverendo Prior Francisco de Lima e Azevedo Camelo Falcão, Juiz da Confraria de Nossa Senhora da Lapa, aonde eu tabelião fui vindo, aí, perante mim e testemunhas ao diante nomeadas e no fim deste instrumento assinadas, foram presentes partes outorgantes e aceitantes, a saber, de uma o dito Reverendo Prior e Juízes da dita Confraria e com ele o tesoureiro dela, João Carneiro e Azevedo Duarte, e bem assim mais os deputados seguintes: Manuel Leite de Brito, coadjutor da Igreja Matriz desta Vila, e o doutor António Luís Pereira Campos e Manuel Machado de Barros e João da Costa Pereira, todos moradores nesta dita Vila, e com eles, Luís Machado de Barros Vilas-Boas, Juiz da Confraria de São Bertolameu, a qual esta anexa à da Senhora da Lapa, e da outra João Monteiro e Mathias de Passos e João António Dias, mestres-pedreiros, todos moradores nesta mesma Vila de Conde e uns e outros reconhecidos de mim tabelião pelos próprios, de que dou fé, como também das testemunhas perante as quais e de mim tabelião pelos ditos Juízes e Oficiais, que também são irmãos da Confraria do Apóstolo São Bartolomeu em cuja capela se acha colocada a Imagem de Nossa Senhora da Lapa, por todos e por cada um in solidum foi dito e disseram que estando em acto de conversação e mesa pretenderam edificar de novo um templo em lugar do antigo para com toda a decência e veneração estarem as imagens de Nossa Senhora da Lapa e do Apóstolo São Bartolomeu, com as dos mais Santos e Santas e mais ima­gens que residiam na capela antiga, fazendo todos os acrescen­tamentos de comprimento, altura e largura e as mais mudanças de que precisariam para o bom ornato do mesmo templo e igreja, e para este efeito deram a dita obra de empreitada ao mestre João Monteiro e a seus consócios Matias de Passos e João António Dias e por preço de seiscentos e quinze mil réis na forma da planta e aponta­mentos que todos viram, leram e assinaram, como deles constavam, e porque queriam segurar a obrigação desta obra por escritura pública estipulando nela por contrato as condições com que há-de ser feita (…)

Enquanto o fragmento anterior dá conta sobretudo da ideia que preside à construção que se quer levantar, o que se segue contém informações bastante precisas sobre a obra, destinadas ao mestre-pedreiro construtor.

(…) o Corpo da Igreja há-de ter em vazio trinta e dois palmos e porão duas pias de pedra ao pé da porta principal para a água benta, que serão feitas de concha com todo o primor da arte, que terão dois palmos e meio de vão e três de comprido, e bem assim dois cachorros bem lavrados de quartela, com suas meias canas ao uso moderno, e juntamente uma porta falsa no lado do sul, correspondente à porta da entrada do púlpito da parte do norte; e neste lado na capela-mor fará uma porta para a sacristia com cinco palmos de largo e desde alto apilarada por fora e por dentro nos alicerces do corpo de toda a Igreja e capela-mor – lhe deixarão hum palmo de sapata pela parte de fora e por dentro hum quarto de palmo e os alicerces serão firmados em pedra firme e copiado da capela-mor; e arco cruzeiro até onde hão-de ir as grades, conforme mostra a planta, será feito de fiada, escu­dado, e enquanto às empenas da capela-mor e arco cruzeiro as farão com o ponto necessário para a boa expedição das águas; e, conforme o pedir a arte, as pirâmides do arco cruzeiro e capela-mor serão como as do frontispício; e o arco cruzeiro, sem embargo do que mostra a planta, o farão, no que diz respeito a largura, ou menos a largura dele, conforme eles oficiais o determinaram, e as sapatas do alicerce do corpo da Igreja, pela parte de fora, será de esquadria de friso; e que enquanto ao mais se fará a obra na forma da planta; e que com todas estas condições haviam por arrematada a dita obra pela dita quantia de seiscentos e quinze mil reis (…)

Quem foi o arquitecto?
O documento anterior não informa nada sobre o autor da planta. Terá sido Nicolau Nasoni como alguns pretendem?
Duvidamos. De qualquer modo, o eventual esclarecimento desta questão poderia passar por um conhecimento mais alargado da personalidade do prior vila-condense. Mas, mais que isso, a grandiosidade do projecto concretizado leva a crer que a ideia de construir esta igreja surgiu da euforia gerada pela pregação do Pe. Ângelo Sequeira. Nesse caso, a ideia da construção e da planta datariam apenas de 1757, o que põe de lado a eventual anterior intervenção de Nasoni. E, se se compara a fachada da Igreja da Lapa de Vila do Conde com fachadas comprovadamente deste arquitecto, a conclusão também não parece sugerir de imediato a sua autoria. Não foi Nasoni que desenhou a Igreja da Lapa do Porto.

Nota sobre o Prior Falcão
O Prior Falcão nasceu em 29 de Outubro de 1706, em São Simão da Junqueira, na aldeia do Cerqueiral, e foi baptizado pelo prior do mosteiro local, D. Dionísio de Santo António. Depois, a família veio residir para Vila do Conde. O pai chamava-se José Pinto Carneiro e era cavaleiro professo da Ordem de Cristo; o nome da mãe era D. Maria Luísa de Azevedo.
Iniciou actividade em Vila do Conde em 1737 (por uma tia, abadessa de Santa Clara, lhe ter dado a apresentação do priorado) e faleceu em 5 de Julho de 1759, com 52 anos. Em 27 de Março, tinha-lhe morrido um escravo. Nos derradeiros meses era reservatário, havendo um novo prior em efectividade.
Ao menos à sua morte residia na Rua da Igreja. 
A memória paroquial que escreveu é muito desenvolvida e cuidada e tem um título bem original: “Epílogo Topográfico”. Confessa que passou dois meses a prepará-la.
A escritura de arrematação da obra da Igreja da Senhora da Lapa foi lavrada em sua casa, o que pode significar que a sua saúde já não andaria bem naquele Março de 1858.
Não fez testamento.


[1] Esta escritura foi publicada por Eugénio de Andrea da Cunha e Freitas e republicada por José Emídio Martins Lopes.

Uma construção magnífica e custosa

O projecto do Prior Falcão
No Epílogo Topográfico, o Prior Falcão manifestou-se entusiasmado com a obra que estava a ser edificada, “de estrutura magnífica e custosa”. Mas devemo-nos perguntar: que é que o juiz da Lapa e prior de Vila do Conde quis construir?
Na escritura da arrematação fala-se de “edificar de novo um templo em lugar do antigo para com toda a decência e veneração estarem as imagens de Nossa Senhora da Lapa e do Apóstolo São Bartolomeu, com as dos mais Santos e Santas e mais ima­gens que residiam na capela antiga”.

Importante pormenor da fachada da Igreja da Lapa que elucida sobre as intenções de quem promoveu a construção deste templo.

Isto não é a mesma coisa que uma igreja nova de Nossa Senhora da Lapa. Havia muita coisa nova, mas não se rompia com o passado.
O projecto do Prior Falcão está expresso no frontão da igreja e nas duas imagens que sobre ele se colocaram.
As imagens do apóstolo São Bartolomeu e do mártir São Lourenço indicam a continuidade da devoção antiga que ali se promovia; a coroa, destacadíssima, no lugar mais nobre, representa Nossa Senhora (os reis portugueses tinham feito a entrega da sua coroa a Nossa Senhora).
Isto confirma o que se vê na escritura de arrematação da obra.

O exterior barroco
No site da Direcção-Geral do Património Cultural encontra-se uma nota histórica e artística sobre a Igreja da Lapa de Vila do Conde da qual vamos transcrever alguns excertos.
Depois de se recolher a opinião de que pode ter sido Nasoni o autor da sua planta, continua-se:

Uma das vistosas torres da Igreja da Lapa de Vila do Conde, a do norte.

Na verdade, as linhas finas e nervosas do frontispício da Lapa denotam uma influência rococó que se manifestava, por estes anos, nas obras de Nasoni, entre as quais destacamos a fachada da igreja da Misericórdia do Porto, de meados do século XVIII. 
De planta longitudinal, com nave e capela-mor rectangulares e sacristia adossada a norte, a igreja da Lapa exibe uma imponente fachada, seccionada por pilastras que a dividem em três panos, correspondendo os laterais às torres. O central é aberto por portal de verga curva, sobrepujado por frontão triangular de lanços, com remate formado por motivos concheados que se liga à janela superior que, por sua vez, faz elevar a linha da cornija que está na base do frontão triangular que termina o alçado. Este exibe lateralmente as imagens de São Bartolomeu e São Lourenço e, no vértice, um plinto sobre o qual se ergue a coroa real e a cruz. Nos panos das torres, uma janela com moldura relaciona-se com o relógio que as remata, levantando-se as sineiras já sobre a cornija. 
A coroa é real, mas neste caso é um símbolo mariano.
Embora esta nota não acentue a importância das torres no contexto da fachada frontal, o lugar delas é o mais destacado: grandiosas, injustificadas nos seus oito sinos, para efeito visual.
Para apreciar a sua grandiosidade e arte, paga a pena compará-las com outras quase contemporâneas, como as da Igreja do Mosteiro de São Simão da Junqueira ou as da Matriz da Póvoa de Varzim.
Excelente retábulo neoclássico do altar-mor.

O interior neoclássico

A diferença estilística entre a exuberância da fachada do templo e o seu interior é surpreendente. Ao barroco já próximo do rococó do exterior corresponde a talha neoclássica dos retábulos. A nota da Direcção-Geral do Património Cultural que já citámos exprime-se assim sobre ele:
Não é possível determinar em que época o templo ficou concluído, mas a campanha decorativa do interior, de características já neoclássicas, prolongou-se, com certeza, até ao início do século XIX. Destacam-se os retábulos colaterais, a sanefa que coroa o arco triunfal, e o retábulo-mor, em talha dourada e branca. 
O recente restauro desta talha beneficiou-a muito.
É possível que a morte do Prior Falcão em 1759 tenha afectado o impulso e o andamento das obras adiando-as.
A imagem da padroeira tem este rico enquadramento.

Mais três imagens da Igreja da Lapa

Esta bela porta barroca merece ser comparada com a do Convento do Carmo, com a da Igreja do Mosteiro da Junqueira e com a da Matriz da Póvoa.
Retábulo de São Lourenço.
A delicada sanefa do arco triunfal.

O medalhão do tecto da capela-mor
O Prof. José Emídio Martins Lopes chamou a atenção para o medalhão que decora o tecto da capela-mor.
Além duma minúscula representação de um Olho de Deus, encontra-se lá uma inscrição latina ininteligível: COLUND NEAIN FORAMINEV.
De facto, apesar dos muitos erros – não há uma única palavra correctamente escrita – ter-se-à pretendido registar o início duma frase do Cântico dos Cânticos 2, 14, que reza assim em latim:
Medalhão do tecto da capela-mor.

Columba mea in foraminibus petrae, in caverna maceriae, ostende mihi faciem tuam, sonet vox tua in auribus meis, vox enim tua dulcis et facies tua decora.
Versão portuguesa:
Minha pomba, nas fendas do rochedo,
No escondido dos penhascos,
Deixa-me ver o teu rosto,
Deixa-me ouvir a tua voz.
Pois a tua voz é doce
E o teu rosto encantador.
O Cântico dos Cânticos, livro de tema amoroso atribuído a Salomão mas escrito muitos séculos após a morte deste rei, é altamente poético e faz a delícia dos místicos, que o lêem alegoricamente, passando do canto do amor humano para o canto do amor divino[1].
No contexto da Igreja da Lapa, a leitura alegórica poderia apontar para a Sabedoria divina, o Espírito Santo, ou para Nossa Senhora como a Sede da Sabedoria.



[1] Esta passagem do sentido literal para o alegórico, em tempos, estendeu-se a todo o texto bíblico; o grande sábio vila-condense Pe. Manuel de Sá, SJ (cerca de 1530-1596), foi um dos primeiros estudiosos modernos a reivindicar o regresso ao seu sentido literal.

Uma memorável missão apostólica

O Pe. Ângelo Sequeira e a segunda Lapa
A que chamamos segunda Lapa nasceu da pregação e dos livros do Pe. Ângelo Sequeira, cónego da Sé de São Paulo, nessa diocese nascido em 1707 e falecido no Rio de Janeiro, a 7 de Setembro de 1775.
Por meados do século esteve em Portugal. Aqui solicitou e obteve cartas de missionário apostólico e com elas percorreu por alguns anos as províncias do reino e parte das de Espanha, pregando a penitência e fazendo numerosas conversões. Voltou por fim ao Brasil e fundou na província de S. Paulo o seminário de Nossa Senhora da Lapa, falecendo com opinião de grande virtude.
Imagem de Nossa Senhora da Lapa que se encontra na Botica Preciosa a partir da qual depois se fizeram repetidíssimas esculturas. De facto, ela copiava uma imagem tridimensional que o autor costumava trazer consigo.

Encontram-se em linha duas obras suas: 
Botica preciosa e thesouro precioso da Lapa, em que como em botica e thesouro se acham todos os remedios para o corpo, para a alma e para a vidaÉ uma receita da vocação dos Santos para remedio de todas as enfermidades, Lisboa, 1754; com 4 estampas.

Livro do vinde e vêde, e do sermão do dia do juizo universal, em que se chama a todos os viventes para virem e vêrem umas leves sombras do ultimo dia, o mais tremendo e rigoroso do mundo, Lisboa, 1758.

O Pe. Ângelo Sequeira no norte de Portugal
O Prof. Francisco Ribeiro da Silva tem em linha dois trabalhos sobre a origem da Igreja de Nossa Senhora da Lapa, no Porto:
Encontra-se neles a melhor síntese que conhecemos sobre a sua acção do Pe. Ângelo Sequeira no Porto e na Diocese de Braga. Escreve o autor a certa altura, no primeiro destes trabalhos, referindo-se ao ano de 1756 ou 1757 e à campanha de pregação que o missionário brasileiro então empreendeu:
Entretanto, movido pelo desejo de espalhar pelo Reino o culto a Nossa Senhora da Lapa e talvez de angariar fundos para a construção da Igreja (da Lapa, no Porto), o Missionário pôs os pés ao caminho, dirigindo-se para Azurara, Vila do Conde, Esposende, Viana da Castelo, Ponte de Lima, Braga, Guimarães, inscrevendo grande cópia de Irmãos e juntando uma boa ajuda pecuniária que entregou na Mesa Administrativa: 1.521$170 réis! Como o Missionário se fazia acompanhar de um livro para registo dos novos irmãos, e como alguns (talvez a totalidade) desses livros se encontram no Arquivo da Irmandade, mostra-se possível, se necessário, reconstituir esse périplo do Fundador e a expansão da Irmandade da Lapa pelo Norte de Portugal.
O Pe. Ângelo Sequeira esteve assim em Vila do Conde e certamente na capela da Lapa.
 Imagem de Nossa Senhora da Lapa que se venerou na antiga Igreja Paroquial de Santagões (Bagunte).

A pregação do Pe. Ângelo Sequeira
Na página cinco da Botica Preciosa, afirma o Pe. Ângelo Sequeira sobre a importância da invocação de Nossa Senhora como Senhora da Lapa:
É Maria Santíssima a verdadeira Botica Preciosa, o verdadeiro Tesouro: tudo nos vem por suas mãos, como diz São Bernardo – omnia per manus Mariae. Finalmente é um tudo para tudo – omnibus omnia facta est. Ela é que nos livra de todos os perigos: Sed a periculis cunctis libera nos sempre, Virgo gloriosa et benedicta!
E, como nas boticas se acha a variedade de remédios, vai nesta uma receita dos santos advogados para todas as enfermidades para qualquer enfermo escolher a que mais lhe agradar; e saiba que, sobre todas as receitas e vocações, é Nossa Senhora da Lapa a principal advogada para todas as enfermidades corporais e espirituais. E assim, com estilo breve, direi alguns prodígios que Ela tem obrada para afervorar a devoção dos devotos que se fizeram valer dos remédios desta Botica Preciosa da Lapa e utilizar-se deste Tesouro Precioso da Lapa.
O que conta a seguir, passado consigo e com os fiéis que em Portugal e Brasil o ouviram, é impressionante. E de facto impressionou profundamente. E por isso multiplicaram-se os locais de culto onde se veneravam imagens da Senhora da Lapa esculpidas a partir da imagem bidimensional do livro.

Duas saudações a Nossa Senhora
Saudação a Maria
Deus vos salve, Maria, serva da Santíssima Trindade, humilíssima!
Deus vos salve, Maria, Filha do Eterno Pai, santíssima!
Deus vos salve, Maria, Esposa do Espírito Santo, amabilíssima!
Deus vos salve, Maria, Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo, digníssima!
Deus vos salve, Maria, irmã dos Anjos, formosíssima!
Deus vos salve, Maria, promessa dos Profetas, gloriosíssima!
Deus vos salve, Maria, Mestra dos Evangelistas, verdadeiríssima!
Deus vos salve, Maria, Doutora dos Apóstolos, prudentíssima!
Deus vos salve, Maria, Consolação dos Mártires, fortíssima!
Deus vos salve, Maria, fonte enchente dos Confessores, suavíssima!
Deus vos salve, Maria, honra e coroa das virgens, jucundíssima!
Deus vos salve, Maria, saúde e consolação dos vivos e dos mortos, prontíssima!
Sede comigo em todas as minhas tribulações, necessidades, angústias e enfermidades e alcançai-me o perdão de meus pecados, principalmente na hora da minha morte não me falteis, piíssima e beatíssima Virgem Maria!
(Botica Preciosa da Lapa, pág. 168.)

Saudação
Deus vos salve, Maria, Filha de Deus Pai!
Deus vos salve, Maria, Mãe de Deus Filho!
Deus vos salve, Maria, Esposa do Espírito Santo!
Deus vos salve, Maria, formoso templo da Divindade!
Deus vos salve, Maria, resplandecente lírio da Santíssima Trindade!
Deus vos salve, Maria, rosa agradável e toda a corte celestial!
Deus vos salve, Maria, Virgem das Virgens, Virgem poderosíssima, cheia de doçura e humildade, de que o Rei eterno e Supremo do Céu quis nascer e ser alimentado com o vosso leite!
Deus vos salve, Maria, Rainha dos Mártires, cuja alma santíssima foi cruelmente ferida pela espada de dor!
Deus vos salve, Maria, Senhora e Mestra do mundo, a quem foi dado todo o poder assim na terra como no Céu.
Deus vos salve, Maria, Rainha do meu coração, minha Mãe, minha guia, minha doçura e toda a minha esperança!
Deus vos salve, Maria, Mãe amabilíssima!
Deus vos salve, Maria, Mãe admirabilíssima!
Maria, Cheia de graça, o Senhor é convosco!
Maria, bendita sois entre as mulheres! Bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus Cristo! (…)
Botica Preciosa da Lapa, pág. 171 (saudação traduzida do francês).

Imagem de Nossa Senhora da Lapa que se venera em Arcos de Valdevez.

Longa citação do Livro do Vinde e Vede
O Pe. Ângelo Sequeira não falava só de Nossa Senhora da Lapa. A citação abaixo é recolhida do seu Livro do Vinde e Vede, que tem um longo título ao gosto do tempo: “Livro do Vinde e Vede e do Sermão do Juízo Final em que se Chama a todos os Viventes para Virem e Verem umas Leves Sombras do Último Dia, o mais Tremendo e Rigoroso do Mundo".
Mas nem todas as suas páginas são para apavorar.
A partir da página 175, num processo que lembra o Gil Vicente das Barcas, imagina o pregador desculpas que darão no Juízo Final muitos e diversificados membros da Igreja. A citação tem além do mais a virtude de nos mostrar um pouco do que eram os grupos sociais naquele século e algumas das relações que entre uns e outros se estabeleciam.
Dirão os pontífices: Senhor, a Igreja e a Cristandade era muito grande e estendida. Eu tinha muitos pastores, cardeais, bispos, arcebispos em que me fiava: suspendei o braço da vossa ira.
Dirá o Anjo:
Ó pontífices, cá no Céu temos muitos dos vossos antecessores, que cuidaram mais nas suas obrigações e foram pastores vigilantes; e destes mesmos temos cá muitos santos: Sanctis millibus[1].
Dirão os cardeais: Senhor, os negócios eram muito grandes e tínhamos bons teólogos e assessores e nos fiávamos neles: suspendei o vosso castigo.
Dirá o Anjo:
Cá temos muitos dos vossos antecessores com as mesmas circunstâncias e feitos santos. Sanctis millibus.
Dirão os arcebispos e bispos: Senhor, a diocese e bispado era muito comprido e estendido, tínhamos bons vigários e curas e bons visitadores: descansámos neles: suspendei a vossa ira.
Dirá o Anjo:
Cá temos muitos dos vossos antecessores que tiveram melhor cuidado que vós e não deram benefícios por cartas de favor nem ordenaram por empenhos, e destes temos cá muitos no Céu, muitos santos com as mesmas ocupações que vós tivestes. Sanctis millibus.
Dirão os vigários, reitores, abades e curas[2]: Senhor, a freguesia era muito grande e estendida, tinha bons operários, descansámos neles: suspendei a vossa ira.
Dirá o Anjo:
Nunca lestes o que vos estava avisando o Concílio nestas palavras Cum certissimum sit, excusationem pastorum non admitti si lupus oves comedat et pastor nesciat[3]. Pois sabei que cá no Céu temos muitos dos vossos antecessores com as mesmas ocupações feitos grandes santos. Sanctis millibus.
Dirão os clérigos e sacerdotes seculares: Senhor, nós éramos pobres, os rendimentos pequenos, as despesas grandes: tende compaixão de nós.
E dirá o Anjo:
Vós não lestes o que já de vós dizia São João Crisóstomo, que as vossas culpas e delitos eram causa de perdição do povo: Ruina populi mei ex maxima culpa sacerdotum fuit[4]? Pois sabei que cá no Céu temos muitos clérigos e sacerdotes com as mesmas circunstâncias que vós alegais e destes temos muitos santos. Sanctis millibus.
Dirão os prelados das religiões[5]: Senhor, os conventos estavam alcançados em dívidas e disfarcei alguma coisa nos meus súbditos para se recolherem às casas de seus pais e suas mães e passarem as férias, e me fiava neles: suspendei a vossa ira.
Dirá o Anjo:
Vós não lestes aquelas palavras Impossibile est aliquem ex Rectoribus salvos fieri[6]? Pois sabei que cá no Céu estão muitos dos vossos antecessores que tiveram os seus conventos empenhados, mas desempenharam as suas obrigações nas vigilâncias e por isso temos cá desses muitos: Sanctis millibus.
Dirão os reis, monarcas e príncipes: Senhor, o reino era muito grande, pusemos relações, ministros, governadores, descansávamos neles: suspendei a vossa ira.
Dirá o Anjo:
Cá temos no Céu muitos dos vossos antecessores mais cuidadosos e feitos grandes santos: Sanctis millibus.
Dirão os ministros, os governadores, os militares, os letrados, os oficiais: Senhor, os negócios eram de muita suposição, as demandas eram contínuas, os despachos actuais, as portas remotas: suspendei a vossa ira.
Dirá o Anjo:
Cá no Céu temos muitos com as mesmas circunstâncias e feitos grandes santos. Sanctis millibus.
Dirão os solteiros e solteiras e donzelas: Senhor, éramos pobres e desamparados: suspendei a vossa ira.
Dirá o Anjo:
Cá no Céu temos muitos com essas circunstâncias feitos grandes santos: Sanctis millibus.
Dirão os casados e pais de família: Senhor, a família era grande, muitos filhos e filhas, pouco era o que trabalhava para o seu sustento: suspendei a vossa ira.
Dirá o Anjo:
Cá no Céu temos muito pobres, pois deles é o reino dos Céus, que o souberam merecer com a sua pobreza, feitos grandes e grandes santos: Sanctis millibus.Dirão os filhos-famílias, os criados e criadas, escravos e escravas: Senhor, os nossos pais e senhores não nos assistiam com tudo o que nos era necessário, faltaram às suas obrigações, não nos ensinaram a doutrina cristã e nem a confessar as nossas culpas: suspendei a vossa ira.
E dirá o Anjo:
Cá no Céu temos muitos e muitas com esse desamparo feitos grandes santos: Sanctis millibus.
Dirão os lavradores: Senhor, nós estávamos muito ocupados com as nossas lavouras e colheitas, éramos muito pobres, não tínhamos criados para nos trabalharem, as rendas que pagávamos eram exorbitantes, pouco era o tempo para o serviço.
Dirá o Anjo:
Cá no Céu temos muitos que foram lavradores com essas mesmas pobrezas e colheitas e foram santos: Sanctis millibus.
Dirão as mulheres mundanas e pecadoras públicas: Senhor, nossos pais foram muito pobres e nos deixaram ao desamparo, fomos requestadas, rejeitámos, mas cresceu tanto a necessidade que nos prendemos por mera necessidade: suspendei a vossa ira.
Dirá o Anjo:
Cá no Céu temos muitas que foram tão pobres como vós e com as mesmas necessidades e com tudo isso foram muito santas: Sanctis millibus.
Dirão os sacristães das igrejas, tesoureiros, fabriqueiros: Senhor, as igrejas eram muito pobres, não tínhamos tempo para limparmos e assearmos os altares e as vestimentas e mais ornatos da igreja: suspendei a vossa ira.
Dirá o Anjo:
Cá no Céu temos muitos que tiveram as mesmas ocupações e foram limpos, asseados e santos: Sanctis millibus.
Pela citação passa quase toda a gente. Como de cada grupo há milhares de santos, também os destinatários do autor se podem salvar.
E era dito, não propriamente por um taumaturgo, mas por alguém cuja devoção era fonte de grandes graças e milagres. Alguém também próximo das pessoas, que se preocupava com elas. O Pe. Ângelo Sequeira, apesar de ser cónego da Sé de São Paulo e monsenhor, assinava “Ângelo Sequeira, pobre Missionário Apostólico”.
Pelas reacções de que nos chegou conhecimento indirecto, podemos concluir que ele foi arrebatador.


[1] Milhares de santos. Citação da Epístola de São Judas Tadeu.
[2] Basicamente, trata-se de párocos.
[3] Quando for bem certo, não seja admitida a desculpa dos pastores se o lobo come as ovelhas e o pastor não sabe.
[4] A ruína do meu povo foi da máxima culpa dos sacerdotes.
[5] Superiores das casas religiosas.
[6] É impossível que algum dos governantes se salve. Esta citação deve estar errada. Talvez fosse assim: Miror an fieri possit ut aliquis ex rectoribus sit salvus: Admiro-me que algum dos governantes possa ser salvo.

Os ex-votos setecentistas


Na sacristia da Igreja da Senhora da Lapa guardam-se três tábuas votivas, milagres ou, simplesmente, ex-votos; uma de 1759, outra de 1761, outra de 1804. Mas houve outras.
Agostinho Araújo estudou-as no seu sábio trabalho “Em redor dos ‘milagres’ da Lapa”[1]. Fotografias das três subsistentes saíram no livro Vila do Conde, de Joaquim Pacheco Neves.
Estes testemunhos de gratidão dependeram ainda do grande sobressalto provocado pela pregação do Pe. Ângelo Sequeira; os dois ex-votos mais antigos são contemporâneos da edificação da nova igreja.
É sintomático que o beneficiado duma das graças fosse de São Simão da Junqueira. Uma obra como a que se projectou precisava de grande adesão popular. Aliás, só se pôde projectar por contar com tal adesão.

Ex-voto de João da Costa, de São Simão (da Junqueira)

Diz assim a sua cartela:

Milagre que fez Nossa Senhora da Lapa de Vila de Conde a João da Costa, de São Simão, que estando em perigo de vida, desenganado de médicos, e se apegou com a Senhora: Ela lhe deu saúde. Já que fez tão grande milagre, por isso se mandou pintar. Ano de 1759.

Os três quadros têm em comum a imagem de Nossa Senhora, a cama em que jaz o doente e um pequeno conjunto de pessoas, familiares ou porventura cirurgiões, os curandeiros encartados do tempo.
Neste caso, Nossa Senhora encontra-se à direita da pintura, não está envolta em auréola de nuvens e olha de frente para quem aprecia o quadro. O seu manto, muito azul, cobre o que parecer ser uma segunda capa de cor vermelha viva. Sob ela, é que está o vestido branco.
Utem-se a impressão de que um véu lhe encobre parcialmente o cabelo. Sobre a cabeça pousa uma coroa.
Ao nível do peito, o manto alarga-se destacando um busto muito volumoso.
Os seus pés pousam talvez sobre nuvem.
É neste retrato que a imagem da Senhora da Lapa se parece mais com a da Botica Preciosa.
Pela cama, pelo seu dossel de cor branca, pela coberta, o doente aparenta ser pessoa de posses.
Os dois homens, o negro (escravo?) e o branco (cirurgião?), chamam a atenção para o doente, mas não parecem em atitude de oração: também eles fixam quem olha para o ex-voto.
Não há janelas e o chão da divisão da casa distingue-se mal do que deviam ser as paredes.

Ex-voto de Joaquim, filho de André Pereira da Costa, de Vila do Conde

Informa a cartela:

Milagre que fez Nossa Senhora da Lapa a Joaquim, filho de André Pereira da Costa, desta Vila, da Rua de Sobmosteiro, estando gravemente enfermo de bexigas, com uma convulsão, já desenganado dos médicos, sem esperança de vida. E logo, recorrendo à dita Senhora, lhe deu saúde no ano de 1761 anos.

Nossa Senhora foi pintada em posição frontal, mas a sua cabeça e olhar dirigem-se para a cama. O seu manto é de um azul claro, com forro vermelho, sobre uma veste branca com ramagens e de forro azul. Por baixo, distingue-se um vestido de azul mais claro.
Envolta em halo de nuvens, apoia-se sobre uma base sustentada por três querubins. Não possui coroa, mas parece que um véu lhe cobre os cabelos.
A silhueta é globalmente volumosa
Semelhanças bastante evidentes com a imagem da Botica Preciosa.
Das outras três pessoas do quadro, uma senhora (mãe? Esposa?) reza com o olhar dirigido para a Senhora e um homem, o “médico”,  atende o doente, que está naturalmente de cama.
Coberta da cama é azul e o dossel vermelho.
As paredes da divisão não têm nitidez e por isso não mostram janelas.
A data de 1761 é seguida de um arroba, que abrevia a palavra anos.

Ex-voto de José Gomes Visa e Manuel da Costa Craveiro

Presumimos que este ex-voto se encontre num museu de Lisboa e por isso recorremos à reprodução do trabalho de Agostinho Araújo. Face aos precedentes, tem a originalidade de respeitar a pescadores e aos perigos do mar.
Consta da cartela:

Milagre que fez Nossa Senhora da Lapa a José Gomes Visa e a Manuel da Costa Craveiro, os quais saindo nos seus batéis com a sua gente, estando o mar e tempo bom, se levantou de tal sorte o mar e temporal que, obrigados a dar-lhes a popa, como fizeram, entrando no porto da Guarda milagrosamente por mercê da Senhora no ano de 1760.

Nossa Senhora olha do canto superior direito os dois barquinhos que então navegam em mar sossegado. De notar a gritante falta de perspectiva que permite que o tamanho da imagem da Senhora da Lapa tenha quase a dimensão dos dois barcos; nestes distinguem-se minúsculos pescadores.
Mas uma vez a imagem da Senhora lembra a da Botica Preciosa.

Agostinho Araújo dá notícia de mais dois ex-votos de data próxima dos anteriores, “o quadrinho que celebrava a graça concedida pela Virgem, em 1759, a Manuel, filho de Manuel Gomes, da freguesia barcelense de Chorente, oferecido por pessoa de Chorente”, desaparecido, e “o ex-voto de Maria Baptista, mulher de Agostinho Lopes, de Vila do Conde, a qual, dando-lhe um acidente na rua, logo melhorou ao invocar a divina Senhora da Lapa”, que será também do mesmo ano marcante de 1759. O autor não indica o paradeiro dele.

O ex-voto de Alves Gomes

Sendo embora já do começo do séc. XIX, incluímos aqui o ex-voto de Alves Gomes por nos parecer bem enquadrado na devoção originada da pregação do Pe. Ângelo Sequeira.
Leitura da cartela:
Milagre que fez Nossa Senhora da Lapa (a) Alves Gomes, soldado, e a sua mulher, desta Vila, que, achando-se doente com uma grande dor e em perigo de vida, recorreu à mesma Senhora e em breve tempo melhorou, em Janeiro deste ano de 1804.
Na pintura, vêem-se o doente na cama e a esposa em oração, além de Nossa Senhora da Lapa. A representação da Mãe de Deus ainda lembra as imagens nascidas da divulgação do Pe. Ângelo Sequeira, mas a uma distância já grande em termos de colorido e de coroa.
Nossa Senhora foi pintada entre a suplicante e o doente. O manto é branco, mas não liso, sobre um vestido de vermelho retinto.
Envolta em halo nebuloso, apoia-se sobre três querubins. Dos lados, a meia altura, mais dois anjos à esquerda e à direita.
Com coroa, mas sem véu.
A silhueta é muito menos volumosa que a dos ex-votos anteriores denotando progressivo afastamento da imagem da Botica Preciosa.
A suplicante reza sem fixar a Senhora, frente à cama onde está o marido.
Coberta da cama do soldado Alves Gomes é castanha, com lençóis muito rendados. Dossel vermelho de menos aparato que o dos ex-votos precedentes.
O interior da casa é muito vagamente definido.

Todos estas tábuas votivas apontam para a lembrança da divulgação que o Pe. Ângelo Sequeira fez da devoção à Senhora da Lapa, mas os quatro que datam de entre 1759 e 1761 lembram muito particularmente a sua acção em Vila do Conde, bem como a do Prior Falcão que promoveu a construção da nova e sumptuosa igreja.

Pequena imagem de Nossa Senhora da Lapa, certamente para dar a beijar. Embora se pareça com as imagens comuns da Senhora, o seu escultor deu-lhe uma forma particularmente elegante.


[1] Este estudo pode-se ler aqui: http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/2829.pdf. Mas há também edição impressa.

A terceira Lapa

O Século XIX

Com o virar do século, a devoção a São Bartolomeu não se extinguiu de todo, mas perdeu com certeza muito do seu antigo vigor[1]. A Capela e a rua adjacente passam a ser usualmente referidas como da Senhora da Lapa. Que a capela se chamava assim já vem no assento de óbito de Manuel André falecido a 6 de Dezembro de 1790 e será confirmado de vários modos.
Aos seis dias do mês de Dezembro de mil setecentos e noventa faleceu repentinamente de uma apoplexia, andando trabalhando no seu campo, e sem sacramentos e testamento, Manuel André lavrador, casado e morador junto à Capela da Senhora da Lapa, e aos sete dias do dito mês e ano foi sepultado na Matriz desta Vila (…)
Que a rua, que sempre se chamara Rua de São Bartolomeu, mudou de nome, verifica-se neste outro assento:
Aos vinte e três dias do mês de Abril de mil oitocentos e cinco, faleceu com todos os sacramentos e com testamento Dona Francisca Constância Caetana Dinis, viúva que ficou de Francisco José Teixeira (?), da Rua da Senhora da Lapa desta Vila, e no mesmo dia foi conduzida à Igreja de São Francisco, com enterro geral, e aí foi sepultada (…)
Este novo nome da rua vai-se manter uns 70 anos, passando depois à designação actual de Rua da Lapa[2].
O sentido da pregação do Pe. Ângelo Sequeira estava esquecido e por Lapa irá passará a entender-se a de Belém.

A aguarela de Vivian
De começos do século há uma boa aguarela do pintor inglês Vivian que mostra a paisagem que se disfrutaria de um ponto pouco a norte da frente da Igreja da Lapa olhando para sul[3]. Vêem-se as magníficas torres da igreja e, à distância, o Convento de São Francisco, muito maior do que o suporíamos, o Mosteiro de Santa Clara, que é um amontoado de edifícios, e ainda, do lado direito, os arcos do aqueduto. Ao centro, em primeiro plano, dois homens, um que parece fidalgo e outro popular, entretêm-se em conversa com uma mulher jovem, sentada numa pedra. Por trás deles, além dum terceiro homem, ainda se admira a paisagem rural que se estende até aos conventos.
A aguarela dá-nos uma vista algo surpreendente sobre este recanto do pequeno concelho de Vila do Conde.

Enterros na Igreja da Lapa em tempo de peste
Em Julho e Agosto de 1832, abateu-se sobre Vila do Conde uma devastadora epidemia de cólera. A princípio, os cadáveres foram enterrados na Matriz, como era usual, mas depois, na semana de entre 3 e 9 de Agosto, passaram a ser sepultados no adro da “Capela da Senhora da Lapa”. Enterraram-se aí 31, quase todos de mulheres.
Por essa altura, já os Mindeleiros, que os vila-condenses em Junho tinham altivamente recusado na Vila, se encontravam no Porto, cercados pelas tropas miguelistas.
Se a capela original de São Bartolomeu era como que uma sentinela à porta nascente de Vila do Conde, isso mudou inteiramente com o alargamento do concelho pelos liberais em 1836, que lhe acrescentaram meia dúzia de freguesias nessa direcção.
No inquérito paroquial de 1845, o Prior Domingos da Soledade Silos, depois de afirmar que a Capela da Lapa é “um templo riquíssimo pela arquitectura”, recordou que D. Frei Caetano Brandão, arcebispo de Braga entre 1790 e 1805, “quando o visitou, lhe concedeu licença perpétua para nele se expor o Santíssimo Sacramento”.

O cisma liberal
Os liberais eram de inspiração maçónica e não hesitaram em mergulhar o país em cisma, cortando relações com a Santa Sé, extinguindo as Ordens Religiosas, fechando os seminários e colocando à frente das dioceses homens que lhes eram fiéis e não tinham em conta a obediência ao Papa.
O encerramento dos conventos de São Francisco e do Carmo há-de ter tido um efeito profundo na vida religiosa de Vila do Conde e por isso também na Capela da Lapa.

Ex-voto de Rita da Piedade de Sousa
O ex-voto de Rita da Piedade de Sousa testemunha um grande milagre, a recuperação da visão por esta senhora vila-condense!
Sua legenda:
Testemunho de gratidão que dá a Jesus, Maria e José Rita da Piedade de Sousa, desta Vila, a qual, estando inteiramente cega e sujeitando-se a operação de catarata, por intercessão da Sagrada Família, recuperou a sua vista em 1845.
A gratidão à Sagrada Família supõe a já referida reorientação da devoção na Capela da Senhora da Lapa no sentido da lapa de Belém.
As roupagens das figuras sagradas são bastante simples, algo ocidentais. As da miraculada, do médico e do outro homem e mulher devem ser bastante próximas das do uso naquele ano de 1845.
Este ex-voto de Rita da Piedade de Sousa deve-se encontrar no Porto, levado por Rocha Peixoto.

Tabela de Legados estabelecidos em benefício de Nossa Senhora da Lapa
Guarda-se na sacristia da Igreja da Lapa um quadro com a “Tabela de Legados estabelecidos em benefício de Nossa Senhora da Lapa”. Muito do que com grandes cuidados de caligrafia lá se escreveu (sobretudo a parte final) está hoje ilegível ou apagado. Mas é possível identificar a maioria dos nomes dos benfeitores, que são de meados do século XIX. Foram eles: Manuel de Jesus Castelo e mulher, Maria Joaquina Carneiro, Maria Rosa Joaquina, José António Dias, João António Dias, António José Dias, D. Maria do Patrocínio Ferreira Barbosa, João José Moreira (?) de Faria e Ana (?) Maria dos Reis.
Trata-se no geral de benfeitores da Santa Casa da Misericórdia, quatro deles bem identificados no livro Santa Casa da Misericórdia de Vila do Conde. Um legado. 1510-1975. I volume. Além de informação escrita, até lá vêm os seus retratos. Dos outros mal sabemos os nomes.

Manuel de Jesus Castelo e mulher, Maria Joaquina Carneiro
Os mais notáveis destes benfeitores da Igreja de Nossa Senhora da Lapa foram Manuel de Jesus Castelo e esposa, que legaram 390.000 réis à Misericórdia com obrigação de dar anualmente, “no dia do SS. Nome de Jesus, 3.200 réis para a festa de Nossa Senhora da Lapa, que consistiria em missas a canto chão (ilegível). E mais a obrigação das missas rezadas seguintes: uma missa no dia de Nossa Senhora da Lapa, uma no dia de Santo André, outra no dia de São Bartolomeu”.
O casal residiu na Praça Velha.
Manuel de Jesus Castelo, piloto-mor da barra, morreu a 13 de Dezembro de 1856, tendo o seu corpo sido sepultado no Adro da Capela de Nossa Senhora da Lapa.

Maria Rosa Joaquina
Maria Rosa Joaquina era comerciante e deixou um expressivo legado à Misericórdia, um conto e meio. Na Lapa deveria ser rezada uma missa aos domingos e dias santos de guarda por alma dela. Faleceu em 21 de Outubro de 1848.

José António Dias
José António Dias era também comerciante e deixou igualmente um conto e meio à Misericórdia. Na Lapa deveria ser rezada uma missa aos domingos e dias santos de guarda por alma deste benfeitor. Faleceu em 15 de Setembro de 1851.
Tem retrato na Misericórdia.

João António Dias
João António Dias legou à Misericórdia dois contos e duzentos mil réis. Não conseguimos ler o benefício oferecido à Lapa. No livro da Misericórdia não vimos o seu nome.

António José Dias
António José Dias, também comerciante, legou à Misericórdia um conto e setecentos mil réis. Residia na “Rua de São Bartolomeu”. Desconhecemos o que legou à Lapa.
Faleceu em 18 de Fevereiro de 1846.
Tem retrato na Misericórdia.

D. Maria do Patrocínio Ferreira Barbosa terá deixado à Confraria da Lapa 39.000 réis, com obrigações que não conhecemos. Do restantes benfeitores da tabela dos Legados, mas sabemos os nomes, que serão João José Moreira (?) de Faria e Ana Maria dos Reis.

A anexação de Formariz a Vila do Conde
Provavelmente, em 1867 a freguesia de Formariz foi anexada religiosamente a Vila do Conde, já que nesse ano terminam os assentos paroquiais. Embora civilmente já estivesse integrado no concelho, quebrava-se assim alguma barreira que restasse para a adesão à Lapa.

Rua da Lapa
A Rua da Lapa deve ter passado a ter este nome, em substituição do anterior de Rua de Senhora da Lapa, cerca de 1870, talvez após ter sido alargada e melhorada no seu piso. Prolonga-se actualmente pela área da antiga Formariz até Touguinha, sendo uma das mais compridas de Vila do Conde.
Foi também na década de 1870 que se abriu a linha do caminho-de-ferro, que tão profundamente marcou a paisagem próxima.
Há um assento de baptismo de 5 de Julho de 1867 em que é padrinho por procuração o “bacharel José Joaquim Figueiredo de Faria, morador na Rua da Senhora da Lapa”. Tinha adquirido este solar dez anos antes.

Lintel da casa que foi de Camilo Araújo, com data de 1903. Houve várias outras casas notáveis na Rua da Lapa, principalmente aquela onde está hoje o Centro de Memória e a dos Peitinhas. Algumas eram muito antigas.

Um documento de 1876
Existe no arquivo municipal um documento com o título de Instituições de Piedade, que é o “questionário a que refere a Portaria do Ministério do Reino de 12 de Junho de 1876”, e diz respeito à Confraria de Nossa Senhora da Lapa e São Bartolomeu[4]. Consta das condições de existência” e “fundo”. Algumas das respostas do questionário às condições de existência têm interesse para o presente caso. Assim, os estatutos teriam sido renovados em 11 de Novembro de 1866, a “igreja em que se acha erecta” era a “Capela de Nossa Senhora da Lapa” e o número de irmãos de ambos os sexos cifrava-se em 250. Esta informação sobre os irmãos é relevante: era manifestamente poucos. Estava a falhar a dinamização da confraria.

E o arquivo?
Os livros dos irmãos, os livros de inventário, as sucessivas reformas dos estatutos, os livros dos legados (deve ter havido legados), das contas, nada disso se conservará? Parece-nos pouco provável…
Mas há muito que ninguém sabe dele[5].

Na transição do século
Agostinho Araújo cita um vila-condense que escreveu assim sobre a Lapa cerca de 1890:

Desta igreja, em tempos que já lá vão, saíram procissões, especialmente pelo Natal, em louvor do nascimento do Menino Deus, as quais percorriam a Vila. Organizavam-se também leilões a fim de angariar meios para as despesas a efectuar com o culto. Lembro-me de, entre os figurantes das referidas procissões, não faltarem os “Três Reis” (entre os brancos, o preto). Cantavam canções adequadas e, em oratório ou nicho, com uma estrela dourada no cimo, sobre um carro ornamentado a capricho, saía, quando se abriam as portas, um anjo, todo de branco e asas da mesma cor, cabeleira dourada, anunciando ao mundo o Grande Evento…
A expressão “em tempos que já lá vão” deve corresponder a uns 30 ou 40 anos atrás. Isso coloca tais procissões por meados do século, ao tempo das doações do grupo de benfeitores da Tabela dos Legados. A Lapa associara-se duradoiramente ao ciclo litúrgico do Natal.



[1] Não são conhecidos ex-votos dedicados a este apóstolo.
[2] Isto não significa que não venham a aparecer ainda referências à Rua de São Bartolomeu.
[3] Por cerca de 1990 vimos no numa montra no Porto o original ou uma cópia muito perfeita desta aguarela. Era uma pintura encantadora, cheia de luz. Recordamo-nos que pediam por ela nove contos.
[4] Oficialmente ainda era assim, como é hoje, que se designa a Confraria.
[5] Poderá haver alguma coisa na Junta.