quinta-feira, 19 de março de 2015

A terceira Lapa

O Século XIX

Com o virar do século, a devoção a São Bartolomeu não se extinguiu de todo, mas perdeu com certeza muito do seu antigo vigor[1]. A Capela e a rua adjacente passam a ser usualmente referidas como da Senhora da Lapa. Que a capela se chamava assim já vem no assento de óbito de Manuel André falecido a 6 de Dezembro de 1790 e será confirmado de vários modos.
Aos seis dias do mês de Dezembro de mil setecentos e noventa faleceu repentinamente de uma apoplexia, andando trabalhando no seu campo, e sem sacramentos e testamento, Manuel André lavrador, casado e morador junto à Capela da Senhora da Lapa, e aos sete dias do dito mês e ano foi sepultado na Matriz desta Vila (…)
Que a rua, que sempre se chamara Rua de São Bartolomeu, mudou de nome, verifica-se neste outro assento:
Aos vinte e três dias do mês de Abril de mil oitocentos e cinco, faleceu com todos os sacramentos e com testamento Dona Francisca Constância Caetana Dinis, viúva que ficou de Francisco José Teixeira (?), da Rua da Senhora da Lapa desta Vila, e no mesmo dia foi conduzida à Igreja de São Francisco, com enterro geral, e aí foi sepultada (…)
Este novo nome da rua vai-se manter uns 70 anos, passando depois à designação actual de Rua da Lapa[2].
O sentido da pregação do Pe. Ângelo Sequeira estava esquecido e por Lapa irá passará a entender-se a de Belém.

A aguarela de Vivian
De começos do século há uma boa aguarela do pintor inglês Vivian que mostra a paisagem que se disfrutaria de um ponto pouco a norte da frente da Igreja da Lapa olhando para sul[3]. Vêem-se as magníficas torres da igreja e, à distância, o Convento de São Francisco, muito maior do que o suporíamos, o Mosteiro de Santa Clara, que é um amontoado de edifícios, e ainda, do lado direito, os arcos do aqueduto. Ao centro, em primeiro plano, dois homens, um que parece fidalgo e outro popular, entretêm-se em conversa com uma mulher jovem, sentada numa pedra. Por trás deles, além dum terceiro homem, ainda se admira a paisagem rural que se estende até aos conventos.
A aguarela dá-nos uma vista algo surpreendente sobre este recanto do pequeno concelho de Vila do Conde.

Enterros na Igreja da Lapa em tempo de peste
Em Julho e Agosto de 1832, abateu-se sobre Vila do Conde uma devastadora epidemia de cólera. A princípio, os cadáveres foram enterrados na Matriz, como era usual, mas depois, na semana de entre 3 e 9 de Agosto, passaram a ser sepultados no adro da “Capela da Senhora da Lapa”. Enterraram-se aí 31, quase todos de mulheres.
Por essa altura, já os Mindeleiros, que os vila-condenses em Junho tinham altivamente recusado na Vila, se encontravam no Porto, cercados pelas tropas miguelistas.
Se a capela original de São Bartolomeu era como que uma sentinela à porta nascente de Vila do Conde, isso mudou inteiramente com o alargamento do concelho pelos liberais em 1836, que lhe acrescentaram meia dúzia de freguesias nessa direcção.
No inquérito paroquial de 1845, o Prior Domingos da Soledade Silos, depois de afirmar que a Capela da Lapa é “um templo riquíssimo pela arquitectura”, recordou que D. Frei Caetano Brandão, arcebispo de Braga entre 1790 e 1805, “quando o visitou, lhe concedeu licença perpétua para nele se expor o Santíssimo Sacramento”.

O cisma liberal
Os liberais eram de inspiração maçónica e não hesitaram em mergulhar o país em cisma, cortando relações com a Santa Sé, extinguindo as Ordens Religiosas, fechando os seminários e colocando à frente das dioceses homens que lhes eram fiéis e não tinham em conta a obediência ao Papa.
O encerramento dos conventos de São Francisco e do Carmo há-de ter tido um efeito profundo na vida religiosa de Vila do Conde e por isso também na Capela da Lapa.

Ex-voto de Rita da Piedade de Sousa
O ex-voto de Rita da Piedade de Sousa testemunha um grande milagre, a recuperação da visão por esta senhora vila-condense!
Sua legenda:
Testemunho de gratidão que dá a Jesus, Maria e José Rita da Piedade de Sousa, desta Vila, a qual, estando inteiramente cega e sujeitando-se a operação de catarata, por intercessão da Sagrada Família, recuperou a sua vista em 1845.
A gratidão à Sagrada Família supõe a já referida reorientação da devoção na Capela da Senhora da Lapa no sentido da lapa de Belém.
As roupagens das figuras sagradas são bastante simples, algo ocidentais. As da miraculada, do médico e do outro homem e mulher devem ser bastante próximas das do uso naquele ano de 1845.
Este ex-voto de Rita da Piedade de Sousa deve-se encontrar no Porto, levado por Rocha Peixoto.

Tabela de Legados estabelecidos em benefício de Nossa Senhora da Lapa
Guarda-se na sacristia da Igreja da Lapa um quadro com a “Tabela de Legados estabelecidos em benefício de Nossa Senhora da Lapa”. Muito do que com grandes cuidados de caligrafia lá se escreveu (sobretudo a parte final) está hoje ilegível ou apagado. Mas é possível identificar a maioria dos nomes dos benfeitores, que são de meados do século XIX. Foram eles: Manuel de Jesus Castelo e mulher, Maria Joaquina Carneiro, Maria Rosa Joaquina, José António Dias, João António Dias, António José Dias, D. Maria do Patrocínio Ferreira Barbosa, João José Moreira (?) de Faria e Ana (?) Maria dos Reis.
Trata-se no geral de benfeitores da Santa Casa da Misericórdia, quatro deles bem identificados no livro Santa Casa da Misericórdia de Vila do Conde. Um legado. 1510-1975. I volume. Além de informação escrita, até lá vêm os seus retratos. Dos outros mal sabemos os nomes.

Manuel de Jesus Castelo e mulher, Maria Joaquina Carneiro
Os mais notáveis destes benfeitores da Igreja de Nossa Senhora da Lapa foram Manuel de Jesus Castelo e esposa, que legaram 390.000 réis à Misericórdia com obrigação de dar anualmente, “no dia do SS. Nome de Jesus, 3.200 réis para a festa de Nossa Senhora da Lapa, que consistiria em missas a canto chão (ilegível). E mais a obrigação das missas rezadas seguintes: uma missa no dia de Nossa Senhora da Lapa, uma no dia de Santo André, outra no dia de São Bartolomeu”.
O casal residiu na Praça Velha.
Manuel de Jesus Castelo, piloto-mor da barra, morreu a 13 de Dezembro de 1856, tendo o seu corpo sido sepultado no Adro da Capela de Nossa Senhora da Lapa.

Maria Rosa Joaquina
Maria Rosa Joaquina era comerciante e deixou um expressivo legado à Misericórdia, um conto e meio. Na Lapa deveria ser rezada uma missa aos domingos e dias santos de guarda por alma dela. Faleceu em 21 de Outubro de 1848.

José António Dias
José António Dias era também comerciante e deixou igualmente um conto e meio à Misericórdia. Na Lapa deveria ser rezada uma missa aos domingos e dias santos de guarda por alma deste benfeitor. Faleceu em 15 de Setembro de 1851.
Tem retrato na Misericórdia.

João António Dias
João António Dias legou à Misericórdia dois contos e duzentos mil réis. Não conseguimos ler o benefício oferecido à Lapa. No livro da Misericórdia não vimos o seu nome.

António José Dias
António José Dias, também comerciante, legou à Misericórdia um conto e setecentos mil réis. Residia na “Rua de São Bartolomeu”. Desconhecemos o que legou à Lapa.
Faleceu em 18 de Fevereiro de 1846.
Tem retrato na Misericórdia.

D. Maria do Patrocínio Ferreira Barbosa terá deixado à Confraria da Lapa 39.000 réis, com obrigações que não conhecemos. Do restantes benfeitores da tabela dos Legados, mas sabemos os nomes, que serão João José Moreira (?) de Faria e Ana Maria dos Reis.

A anexação de Formariz a Vila do Conde
Provavelmente, em 1867 a freguesia de Formariz foi anexada religiosamente a Vila do Conde, já que nesse ano terminam os assentos paroquiais. Embora civilmente já estivesse integrado no concelho, quebrava-se assim alguma barreira que restasse para a adesão à Lapa.

Rua da Lapa
A Rua da Lapa deve ter passado a ter este nome, em substituição do anterior de Rua de Senhora da Lapa, cerca de 1870, talvez após ter sido alargada e melhorada no seu piso. Prolonga-se actualmente pela área da antiga Formariz até Touguinha, sendo uma das mais compridas de Vila do Conde.
Foi também na década de 1870 que se abriu a linha do caminho-de-ferro, que tão profundamente marcou a paisagem próxima.
Há um assento de baptismo de 5 de Julho de 1867 em que é padrinho por procuração o “bacharel José Joaquim Figueiredo de Faria, morador na Rua da Senhora da Lapa”. Tinha adquirido este solar dez anos antes.

Lintel da casa que foi de Camilo Araújo, com data de 1903. Houve várias outras casas notáveis na Rua da Lapa, principalmente aquela onde está hoje o Centro de Memória e a dos Peitinhas. Algumas eram muito antigas.

Um documento de 1876
Existe no arquivo municipal um documento com o título de Instituições de Piedade, que é o “questionário a que refere a Portaria do Ministério do Reino de 12 de Junho de 1876”, e diz respeito à Confraria de Nossa Senhora da Lapa e São Bartolomeu[4]. Consta das condições de existência” e “fundo”. Algumas das respostas do questionário às condições de existência têm interesse para o presente caso. Assim, os estatutos teriam sido renovados em 11 de Novembro de 1866, a “igreja em que se acha erecta” era a “Capela de Nossa Senhora da Lapa” e o número de irmãos de ambos os sexos cifrava-se em 250. Esta informação sobre os irmãos é relevante: era manifestamente poucos. Estava a falhar a dinamização da confraria.

E o arquivo?
Os livros dos irmãos, os livros de inventário, as sucessivas reformas dos estatutos, os livros dos legados (deve ter havido legados), das contas, nada disso se conservará? Parece-nos pouco provável…
Mas há muito que ninguém sabe dele[5].

Na transição do século
Agostinho Araújo cita um vila-condense que escreveu assim sobre a Lapa cerca de 1890:

Desta igreja, em tempos que já lá vão, saíram procissões, especialmente pelo Natal, em louvor do nascimento do Menino Deus, as quais percorriam a Vila. Organizavam-se também leilões a fim de angariar meios para as despesas a efectuar com o culto. Lembro-me de, entre os figurantes das referidas procissões, não faltarem os “Três Reis” (entre os brancos, o preto). Cantavam canções adequadas e, em oratório ou nicho, com uma estrela dourada no cimo, sobre um carro ornamentado a capricho, saía, quando se abriam as portas, um anjo, todo de branco e asas da mesma cor, cabeleira dourada, anunciando ao mundo o Grande Evento…
A expressão “em tempos que já lá vão” deve corresponder a uns 30 ou 40 anos atrás. Isso coloca tais procissões por meados do século, ao tempo das doações do grupo de benfeitores da Tabela dos Legados. A Lapa associara-se duradoiramente ao ciclo litúrgico do Natal.



[1] Não são conhecidos ex-votos dedicados a este apóstolo.
[2] Isto não significa que não venham a aparecer ainda referências à Rua de São Bartolomeu.
[3] Por cerca de 1990 vimos no numa montra no Porto o original ou uma cópia muito perfeita desta aguarela. Era uma pintura encantadora, cheia de luz. Recordamo-nos que pediam por ela nove contos.
[4] Oficialmente ainda era assim, como é hoje, que se designa a Confraria.
[5] Poderá haver alguma coisa na Junta.

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